74 ANOS DA AUTONOMIA DA IGREJA METODISTA NO BRASIL

 

           O Calendário Metodista registra essa importante data - 2 de setembro - como o Dia da Autonomia. Relembra um dos acontecimentos mais marcantes de nossa história, ocorrido há 74 anos, quando foi proclamada a nossa autonomia e aprovada a nossa primeira Constituição.

           Como bem declarou o Rev. Epaminondas Moura, então pastor da Igreja do Catete, numa entrevista ao Diário da Noite, "a Igreja Metodista do Brasil não está se separando da Igreja Metodista da América do Norte; não está se organizando uma igreja à parte, como se alguma cisão houvesse; trata-se, apenas, de organizar no Brasil uma igreja autônoma, com um Concílio Geral com poderes legislativos, inclusive o de eleger bispos e administrar todo o trabalho nacional, sem perder suas relações com a Igreja Metodista dos Estados Unidos. Acontece que a obra da Igreja Metodista no Brasil desenvolveu-se tanto que se tornou necessária uma reorganização, possibilitando a ela dirigir-se e propagar-se por si mesma, mas sem perder a união com os metodistas de outras partes do mundo."

          Uma das responsabilidades da nova igreja autônoma era com a questão do sustento próprio. Foi a principal preocupação do Movimento Leigo, organizado a partir de 1911. Em 1913, em artigo publicado no Expositor Cristão, o Sr. Ataliba de Castro dizia: "Como se devem sentir felizes e orgulhosos nossos irmãos americanos e ingleses, não só porque sustentam a Igreja em suas pátrias, como no estrangeiro. Não só porque mantém seus próprios ministros, como os missionários que mandam aos paises distantes, onde sustentam também os pregadores locais. Quão glorioso seria para nós imitá-los!" E no Congresso Nacional de Leigos, em 1927, quase todas as 12 teses ali trabalhadas referiam-se a esse tema, com títulos como: "Deverá a Igreja sustentar-se e libertar-se do auxílio da Igreja-Mãe?", "O efeito do sustento próprio sobre a própria igreja", "O sustento próprio. Como alcançá-lo?", "Como poderá a igreja cuidar da evangelização de pontos não evangelizados, ainda, como os sertões, os índios, certos bairros da cidade, etc., sem ter alcançado antes a sua emancipação financeira?" e "Poderá a Igreja, sem estar emancipada financeiramente, fazer-se representar nos congressos mundiais com certa independência?".

          A comemoração do Dia da Autonomia foi, assim, durante longos anos, nas Igrejas Metodistas, instrumentos dessa visão de sustento próprio, com a realização de trabalhos relevantes no dia 2 de setembro, quando o povo metodista era confrontado com a sua responsabilidade de levar o Evangelho a todos os rincões do país e a outras terras distantes, mas precisando, para isto, da emancipação financeira. E ofertas especiais eram levantadas nesse dia, destinadas quase sempre à construção de casas pastorais, uma forma inteligente de investimento estratégico na época.

A AUTONOMIA DA IGREJA METODISTA - Um resumo histórico


No início do século, o trabalho metodista no Brasil cresceu e se expandiu rapidamente, criando-se em 1910 a Conferência Sul Brasileira, no Rio Grande do Sul e em 1918 a Conferência Central Brasileira, em São Paulo, desmembradas da Conferência Anual Brasileira, criada em 1886, esta agora passando a constituir fundamentalmente dos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Embora ainda dependente da ajuda da Igreja mãe, tanto materialmente para a construção de capelas e de casas pastorais e para consolidar as escolas já estabelecidas, como dos missionários que vinham dos Estados Unidos, a Igreja no Brasil passava a tornar-se parte da alma brasileira e, naturalmente, com o tempo, foi se firmando a idéia de uma igreja autônoma, que respondesse aos desafios do seu tempo e se encarnasse em nossa realidade local e continental.

Uma das causas que motivaram o movimento da autonomia foi a dificuldade de administração da Igreja, no Brasil. Como Missão, organizou-se ela em nosso país como a Conferência Anual Missionária do Brasil, ligada à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, dos Estados Unidos. Recebíamos aqui, anualmente, a visita de um Bispo americano, o primeiro deles o Bispo J. C. Granbery, encarregado da supervisão e da direção em decisões mais importantes da obra missionária que ia sendo realizada. As esporádicas  vindas desses obreiros ao Brasil, o pouco tempo de sua permanência em nosso meio e, mais ainda, a dificuldade de comunicação, pois eles não falavam o português, incentivaram o desejo da igreja brasileira de, pelo menos, ter um bispo residente em nosso país, para acompanhar de perto o desenvolvimento do trabalho, acelerando assim o crescimento da igreja em nosso meio. Ao mesmo tempo, ia crescendo a necessidade de a igreja nacional se auto-sustentar, além de ter uma administração centralizada numa conferência nacional autônoma. Outra causa, foi a existência, no contexto social e político brasileiro, de movimentos nacionalistas presentes em toda a América do Sul e mesmo um fenômeno mundial na época, com muita repercussão na alma de lideranças metodistas.

Em 1911 realiza-se um primeiro Congresso de Leigos em Juiz de Fora, a nível regional, que conclama os homens metodistas a trabalharem pelo sustento próprio em suas igrejas locais. Esse movimento, reunindo homens líderes em suas igrejas locais, vai crescendo e, em 1926, realiza-se, depois de outros encontros regionais, um Primeiro Congresso Geral de Leigos, onde os temas de auto-sustento e autonomia apaixonam a todos, inclusive com o chamamento às mulheres, através das Sociedades de Mulheres, a se articularem também nesse movimento.

Em 1922 pede-se à Igreja-Mãe um Bispo residente no Brasil, solicitação essa não atendida. Em 1924 um grupo de pastores brasileiros reúne-se na Igreja do Brás, em São Paulo, para tratar da Autonomia. Em 1926 é enviada uma Comissão a Menphis, nos Estados Unidos, onde se reunia a Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, para solicitar, mais uma vez, um bispo residente no Brasil e expor as nossas preocupações. O Brasil foi atendido parcialmente, mas a criação de uma Conferência Central, incluindo missionários representantes da Igreja Mãe e obreiros nacionais, foi um passo político importante para se chegar à Autonomia.

Essa Conferência Central reuniu-se duas vezes, em 1927 e em 1929, servindo como exercício prático e confirmação das condições dos nacionais de conduzirem a Igreja. Nessa última reunião é preparado um documento para ser apresentado à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, a reunir-se em Dallas, em maio de 1930. Esse documento, denominado "Memorial e Constituição", foi apreciado pelas Conferências Anuais do Centro, Norte e Sul, que se pronunciaram favoravelmente à Autonomia e propuseram alterações finais no documento, já com respaldo de todos os setores da Igreja no Brasil. O documento foi aceito em Dallas, onde foi nomeada uma Comissão Constituinte com cinco delegados americanos e 15 brasileiros, estes eleitos pelas Conferências Anuais. Essa Comissão elabora o anteprojeto de Constituição da Igreja Metodista do Brasil e redige a Proclamação da Autonomia da Igreja Metodista do Brasil. De 2 a 9 de setembro de 1930 realiza-se, então, na Igreja Metodista Central de São Paulo, o Primeiro Concílio Geral da Igreja Metodista do Brasil, quando foi eleito o primeiro Bispo de nossa igreja o Rev. J. W. Tarboux, consagrado Bispo posteriormente na Igreja Metodista do Catete, no Rio de Janeiro.

 

Carlos Wesley - Presidente da SBSMHM

SEÇÃO BRASILEIRA DA SOCIEDADE MUNDIAL DE HISTÓRIA DO METODISMO