Os Querubins e Nossa Hinologia

 

Santo, santo, santo

É o Senhor dos Exércitos,

a terra inteira está cheia da sua glória (Canto dos Querubins).

 

Textos: Ez 1.6-8; Ap 4.4-9; 5.8-14

 

Sabemos que o Espírito Santo é o grande inspirador da música do povo de Deus no decorrer dos séculos. A hinologia da igreja preserva cânticos quase milenares - especialmente os da reforma protestante para cá - que costumam ser entoados em nossos cultos. Não temos dúvida desse legado do Espírito ao povo de Deus. Quero, no entanto, sem extrapolar teologicamente - como dizem alguns, sem elucubrações teológicas - ilustrar os tipos de cânticos de nossa hinologia a partir da aparência dos querubins.

 

Os rostos desses querubins inspiram e levam-nos a uma aventura espiritual. Na visão de Ezequiel, "os quatro tinham rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e também rosto de águia todos os quatro" (Ez 1.11). Falta aqui a descrição do rosto de homem que é complementada no texto de Apocalipse 4.7: "O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando." Já ouvi pregadores usarem os rostos desses querubins para falarem dos quatro evangelhos, uma boa analogia, certamente. Também já usei essas quatro figuras para falar das características de nossos dirigentes de culto - o dirigente tipo leão, que leva o povo à guerra; o dirigente tipo bezerro que leva o povo à comunhão; o dirigente tipo águia que leva o povo à adoração e o dirigente homem que conhece as necessidades das pessoas e cujos cânticos falam dos seus problemas.

 

No entanto, esses querubins são adoradores e proclamam a glória de Deus ininterruptamente, como vimos em Ezequiel, e não se cansam de exaltar o poder de Deus, dia e noite. Nos cânticos do Apocalipse eles estão diretamente envolvidos na adoração, celebração e exaltação de Deus e de Jesus Cristo. E como adoradores seus rostos de águia, de leão, de bezerro e de homens indicam as características dos cânticos que entoamos em nossos cultos.

 

Cânticos de Guerra

 

O primeiro ser vivente é semelhante a leão (Ap 4.7).

 

O leão fala-nos de coragem, de guerra e de liderança. Parece que a força desse querubim com cara de leão pode ser vista nos grandes cânticos de guerra que incendeiam a igreja na luta contra o mal. O povo vive o que canta. Uma igreja que não tem cânticos de guerra ou que não expressa o seu vigor profético em cânticos cheios de determinação não sabe o que é o gosto da vitória. Os cânticos falam do que vivemos.

 

Nesses últimos tempos a hinologia da igreja no Brasil foi invadida por cânticos de guerra como nunca em toda sua história, e isso não é obra humana, mas do Espírito de Deus que sabe de que a igreja precisa. Se tomarmos nossos antigos hinários veremos que em todos eles um bom número de cânticos são de guerra, e muitos desses cânticos deixaram de ser cantados pela igreja por haver perdido seu espírito de luta. Nos últimos trinta anos, entretanto, Deus voltou a trazer os cânticos de guerra à igreja, acrescentando aos dos hinários muitos outros. Assim, ao lado de Castelo Forte escrito por Lutero em 1531 temos Avante, avante ó crentes e Pelo Senhor Marchamos, sim!

 

O Espírito Santo tem dado à igreja cânticos para serem entoados em todas as ocasiões. Não cantamos hinos de guerra em todos os cultos, mas também não os entoamos apenas em marchas e passeatas. Sempre que necessário o Senhor impregna esse espírito de guerra na igreja e ela se lembra dos cânticos que lhe deram grandes vitórias! O dirigente de louvor é alguém que lidera as guerras do povo de Deus.

 

Como parte desse espírito de guerra surge também o dirigente de louvor com cara de leão, levando a igreja a posicionar-se diante de certas situações que exigem dela uma atitude de confrontação. Surge o líder rugindo, bramando, conclamando, cantando, perseguindo os demônios como se estivesse à cata da presa, já que seus cânticos falam de vitória, e ele não desiste enquanto não perceber que a congregação sente o gosto da vitória em seu louvor.

 

A igreja, então, marcha, rodeia profeticamente a Jericó que está em seu caminho, solta brados de guerra e avança contra o mal. Imagino que esse espírito inflamou os  autores dos hinos 305 e o 212 da Harpa Cristã. Esses dois cânticos estão na base do crescimento das Assembléias de Deus no país, da mesma forma que Castelo Forte foi a pilastra para a Igreja Luterana; o cântico Avante ó Crentes na base de crescimento de tantas outras denominações! As igrejas que surgiram nos últimos trinta anos foram inflamadas por uma variedade de cânticos de guerra, entre eles, Pelo Senhor, Marchamos sim! O querubim com rosto de leão leva o povo de Deus à guerra! Um outro cântico diz: "Avançai fiéis soldados; contra as hostes infernais; ouve-se de guerra, brados, homens de Gideão sejais" (471 H.C).

 

Essa exaltação da supremacia do Leão de Judá sobre o diabo é expressa nos cânticos de guerra:

 

Se nos quiserem devorar,

Demônios não contados,

Não nos podiam assustar;

Nem somos derrotados.

O grande acusador,

Do servo do Senhor,

Já condenado está;

Vencido Cairá,

Por uma só Palavra”.  N.A 

 

Às vezes o cântico não tem, necessariamente uma letra de guerra, mas tem  espírito de luta, como o “Firme Nas Promessas” (C.C. 154). Seu ator, Russel Carter compôs com A. B. Simpson (Fundador da Aliança Cristã e Missionária) esse cântico:

 

Firme nas promessas não irei falhar; Vindo as tempestades a me consternar; Pelo Verbo eterno hei de batalhar: Firme nas promessas de Jesus”. 1

 

Deus é um Deus de guerra. Basta ler as Escrituras que o veremos em batalha de Gênesis a Apocalipse. As grandes batalhas da Bíblia - e aconselho a todos em meu livro Estratégias de Guerra Espiritual que se estudem-nas - tem Deus no comando. Não apenas Jericó, a batalha mais visível, mas em todas as guerras que Israel venceu, o comandante é Deus!

 

O Salmo 149 dá um exemplo do louvor de guerra. Claro temos tantos salmos de guerra, mas esse mostra o louvor na assembléia dos santos, em que o povo destrói o inimigo com a espada do louvor! Louvor nos lábios e espada na mão: "Nos seus lábios estejam os altos louvores de Deus, nas suas mãos, espada de dois gumes..." (v.6). Louvor e espada como armas do povo na batalha espiritual! Isaias expressou assim: "Cada pancada castigadora, com a vara que o Senhor lhe der, será ao som de tamborins e harpas; e combaterá vibrando golpes contra eles" (Is 30.32). Os cânticos de guerra envolvem cada combatente de Deus! Se para o exército brasileiro os cânticos motivam os soldados a enfrentar dificuldades no mar, no ar e na selva, o exército de Deus da mesma forma! E o querubim com cara de leão vai à frente liderando o povo em cânticos de guerra.

 

Cânticos de Comunhão

 

“O segundo semelhante a novilho”

 

O querubim com cara de bezerro ou novilho também contribui para a hinologia da igreja. O bezerro é um animal doméstico a serviço da família. Submisso às ordens de seu dono o bezerro é preparado para arar a terra, transportar cargas e se torna quando adulto um boi. Por isso Ezequiel o vê com rosto de boi. É um serviçal. O bezerro nos fala da comunhão. Dos domésticos da fé. Da irmandade. Alguns dirigentes de louvor têm essa característica e a tônica de seus cânticos é a comunhão dos fieis. Por isso o dirigente com cara de novilho quer ver os irmãos abraçados, irmanados numa corrente de amor fraterno, de perdão e união. Ele vê a congregação como um grande rebanho que precisa ser entendido, amado e cuidado.

 

Não existe igreja sem relacionamentos. A verdadeira igreja cultiva os relacionamentos entre os membros. Uma congregação sem relacionamentos até pode existir, mas numa igreja empresarial, em que a motivação é o dinheiro, o sucesso e o crescimento denominacional. O verdadeiro povo de Deus vive de relacionamentos. E o bezerro, um animal doméstico exemplifica o comum do dia a dia, as lides, os problemas, a amizade.

 

O querubim com cara de novilho inspira-nos a escrever cânticos de amor, de perdão entre os irmãos. É quando saímos de nossos lugares, abraçamos nossos irmãos, choramos com eles; sentimos suas necessidades, os abençoamos com nossa presença em suas casas, socorremos com ajuda financeira, etc. Nenhuma igreja amadurece se não aprender a viver os relacionamentos. Daniel de Souza escreveu o cântico,

 

"Recebi um novo coração do Pai,

coração regenerado, coração transformado,

coração que é ensinado por Jesus.

Como fruto deste novo coração,

Eu declaro a paz de Cristo,

Te abençôo meu irmão;

Preciosa é a nossa comunhão;

Somos corpo, e assim bem ajustado,

Totalmente ligado, unidos, vivendo em amor,

Uma família sem qualquer falsidade,

Vivendo a verdade,

Expressando a glória do Senhor!

Uma família, vivendo o compromisso,

Do grande amor de Cristo,

Eu preciso de ti

Querido irmão, precioso és para mim

Querido irmão" 2

 

O querubim com cara de bezerro sabe que a igreja precisa de cânticos relacionais, de amor e comunhão. "Deus cuidará de ti... no teu viver, no teu sofrer, Sim! Cuidará de ti! Deus Cuidará, de ti”. E profetizamos sobre a vida de nosso irmão sabendo que precisa de nosso apoio e força para seguir adiante. "Meu irmão, precioso és para mim!". Cânticos que expressam nosso amor uns para os outros. "Como é precioso, irmão! Estar bem junto a ti". O religioso que vem aos cultos não se sente muito confortável quando a igreja canta esse tipo de cântico, porque ele está distante de tudo, não está a par da vida da igreja, dos problemas dos irmãos, das vitórias. Ele apenas vem e assiste o culto. É o cristão solitário, que vive só. Por vezes acha que não precisa de ajuda!

 

Cânticos que falam das necessidades humanas

 

“O terceiro tem o rosto como de homem”

 

Esse querubim com cara de homem também nos inspira a cantar cânticos que falam de nossas fraquezas, de nossas necessidades, cânticos que retratam nossa humanidade. Às vezes precisamos "descer" do trono de glória da presença de Deus em nossos cultos para atender às necessidades das pessoas que visitam nossos cultos, que não têm condições de adorar nem de entoarem, Santo, Santo, Santo é o Senhor! São pessoas que vêm aos cultos cheias de problemas, dores físicas, emocionais e espirituais e precisam conhecer o Jesus Homem, o Deus que se fez carne para habitar entre nós; o Jesus que de nós se compadece. Quantas vezes, como pastor, percebo que há muito visitante no culto, pessoas que não conhecem a Cristo e o louvor está alto demais para elas. O irmãos, empolgados e cheios da glória celestial são trazidos de volta para a realidade do dia a dia.

 

Mas não apenas em relação a nossa humanidade: cantamos a respeito dessa relação homem/Jesus. O querubim com cara de gente inspira-nos cânticos que falam de nossas necessidades humanas, e de como o Jesus humano de nós se compadece! Começamos a cantar cânticos de fé. Às vezes é bom voltar aos cânticos antigos, cantar um "Foi na cruz, foi na cruz, que um dia eu vi, meus pecados castigados em Jesus"; levar os irmãos a cantarem, "somente crê, somente crê, tudo é possível, somente crê"; levá-los a crer no Deus dos impossíveis, a dizerem, "Hoje vou tocar nas vestes de Jesus"!

 

Sempre é bom trazer de volta o "Quão bondoso amigo é Cristo", versão da Harpa Cristã ou "Em Jesus amigo temos", do Cantor Cristão, ou ainda trazer para a hinologia da igreja "Se Paz a mais doce me deres gozar" e "Tu és Fiel, Senhor". Joseph Scriven, autor de "Em Jesus amigo temos" escreveu este cântico como fruto de sua experiência com o Jesus/homem, que estava sempre ao seu lado. Ainda jovem, residindo na Irlanda, às vésperas de seu casamento sua noiva caiu do cavalo e faleceu. Imigrou para o Canadá e lá, teve a triste sina de ver sua segunda noiva falecer de pneumonia, após ser batizada nas águas geladas de um lago. Anos depois, ao receber uma carta de sua mãe, que estava na Irlanda, contando-lhe que estava muito enferma e aflita, Joseph Scriven, derramou sua alma perante Deus e escreveu:

 

Em Jesus amigo temos

Mais chegado que um irmão,

Ele manda que levemos,

Tudo a Deus em oração.

Oh! Que paz perdemos sempre,

Oh! Que dor de coração,

Só porque nós não levamos

Tudo a Deus em oração”  3

 

Seu corpo foi encontrado caído à beira do rio, como se estivesse ajoelhado e caído para o lado. Ali morreu. Ele sempre experimentou o amor do companheiro Jesus!

 

Esses cânticos do querubim com cara de homem representam os dramas da vida humana. É uma hinologia rica que fala da obra de Cristo, de seu sofrimento, do seu sangue derramado e da vitória do homem, Jesus, sobre os poderes das trevas.

Evangelho quadrangular. Esses irmãos trouxeram a hinologia nas décadas de 60-70 para o nível do povo. Cantavam: O culto hoje vai ser maravilhoso; uma coisa estou sentindo aqui agora; etc.

 

Cânticos de adoração

 

 “E o quarto ser vivente é semelhante a águia quando está voando”

 

A águia, por ser uma ave que se isola das demais e sobe às alturas, que anda só e que não teme as tempestades representa a vida de adoração do crente. Subindo pelas correntes de ar quente, sem esforço algum a águia fala dessa leveza, dessa simplicidade da adoração que não exige esforço, seguindo apenas a corrente do Espírito.

 

São raros os dirigentes de adoração com a característica da águia. E quando aparecem, são incompreendidos, pois o adorador costuma isolar-se dos demais, esquecer o que se passa ao seu redor deleitando-se na presença de Deus.

 

Nossa hinologia de adoração é vasta, pouco usada, no entanto. Por que? Porque a adoração não é um momento no culto, antes da pregação ou depois dela; a adoração é um estilo de vida e serviço, de amor ao próximo e a Deus. Adoração não é apenas aquele tempo que gastamos no culto a Deus, de mãos erguidas, em júbilo santo, prostrados ou contemplativos: é serviço em todas as dimensões! É devoção. Compromisso. E os cânticos o dizem muito bem.

 

Quantos cânticos têm um misto de adoração, quebrantamento e entrega? "Tudo entregarei; tudo entregarei; só por ti Jesus bendito, tudo deixarei". É um cântico de entrega com um toque de adoração. "Quando tudo perante o Senhor estiver; e todo o teu ser ele controlar; Só então, hás de ver; que o Senhor, tem poder; quando tudo deixareis no altar". Um cântico em que apelamos ao irmão que se consagre a Deus, com um toque de adoração.

 

Não apenas somos levados a adorar como águia, mas inspirados a escrever e a cantar cânticos que expressam nossa profunda adoração a Deus. Cânticos que entronizam a Jesus, que exaltam o poder de Deus, que falam da obra do Espírito Santo fazem parte de nossa hinologia.

 

As novas igrejas surgidas a partir da década de 70 introduziram novamente os cânticos de adoração na igreja. Deixaram os cânticos voltados para as necessidades humanas e passaram a cantar diretamente a Deus.

A hinologia hoje: cânticos de intimidade com Deus. Da humanidade de Jesus. De um Deus pessoal, visível que queremos tocar. “Quero te ver; quero te ver; quero te tocar, quero te abraçar, quero te ver... Santo, Santo, Santo.... tu és Santo....”


 

 

 

 


 

N.A Castelo Forte É O Nosso Deus, teve a letra e a música escrita pelo próprio Lutero quando tinha 46 anos de idade em 1529. Nas palavras de Robert McCutcheon: “É excelente em todos os sentidos. É empolgante e tem dignidade, unidade e autoridade raramente igualadas”


 

 

Notas do Capítulo 2: Os Querubins e Nossa Hinologia

1 ICHTER, Bill H. Se os Hinos Falassem, JUERP, Vol. 3, 1984, p. 66-69

2  SOUZA, Daniel, Do álbum Fruto do Espírito I, - Declarando a Glória do Senhor, Cântico Corpo e Família....

3  ICHTER, Bill H. Se os Hinos Falassem,  Volume I, JUERP, 2ª edição de 1976  p. 23-25

 

Notas do Capítulo 3:Impedimento Básico