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UM ESTUDO SOBRE A ORIGEM DA PÁSCOA Estudo produzido pelo prof. Tércio Machado Siqueira, professor de Antigo Testamento da FaTeo O nome e o significado
da palavra "páscoa" O nome que a Bíblia Hebraica usa para denominar "páscoa" é pesah. Com a palavra pesah o texto bíblico quer significar duas coisas: a) o ritual ou celebração da primeira
festa do antigo calendário bíblico (Ex 12.11,27,43,48); Na Bíblia, o nome de uma pessoa ou instituição é sempre um dado importante para se conhecer o que eles são e o que representam. O nome não é um simples rótulo, uma etiqueta ou uma fachada publicitária, mas ele exprime a realidade do ser que o carrega e representa. Assim é o nome "páscoa". O substantivo pesah/páscoa vem da raiz verbal psh que aparece três vezes nos relatos pascais (Ex 12.13,23,27; ler também Is 31.5; 1 Rs 18.21,26). Assim, o verbo pasah passar por cima, saltar por cima é o significado que prevalece nos usos deste termo pelos escritores e escritoras da Bíblia. O Prof. Luiz Roberto Alves assim definiu o termo pesah/ páscoa: "O verbo que dá base ao substantivo
pesah tem o sentido de salto, movimento, A origem da Páscoa Falar de origem da Páscoa é entrar no campo das suposições, pois não há dados suficientes que ajudam a esclarecer sobre essa celebração no período pré-mosaico. Todavia, os textos do Antigo Testamento fornecem indicações que a Páscoa, em suas origens, foi um ritual ou cerimônia que incluía as seguintes características: a) O ritual era realizado no seio da família
ou clã; não tinha altares, santuários e c) O ato central desse ritual era o sacrifício de um jovem animal do rebanho de cabras ovelhas; d) A cerimônia ocorria no fim da primavera
e início do verão (mês de abril), numa e) O ritual da celebração pascal incluía as seguintes etapas: - Retirava-se o sangue do animal, Ter uma atitude de marcha e pressa, f) Parece que o objetivo dessa cerimônia era
pedir proteção divina, para a família e g) Provavelmente, esse ritual foi celebrado por
Abraão, Isaac e Jacó, pois eles eram A Páscoa celebrada pelos
israelitas: Evidentemente que o sistema de vida dos israelitas
mudou substancialmente após a chegada a Canaã. c) Foi nesse período de difícil adaptação
que se dá a integração da Festa dos Pães d) No período entre a chegada do povo israelita
à Canaã e a sedentarização - O conteúdo e a forma da cerimônia
da primitiva da Páscoa já não respondem - Apesar da Páscoa manter boa parte de seu
antigo ritual, o povo israelita - A cerimônia continuou a ser celebrada em
família, mas a Páscoa deixou de e) O mais primitivo ritual da Páscoa encontra-se em Êxodo 12.21-28. Estudo Bíblico: Ex 12.21-28 I. Instrução de Javé para
Moisés e Aarão - v. 21-27a. Tirai, 2. Razão para celebrar a Páscoa
- v. 23 e Javé passará para ferir os
egípcios;
Observareis esta determinação
como um decreto para vós 4. Explicação sobre a festa e o
significado no nome ´páscoa` - v. 26-27a. Quando vossos filhos vos perguntarem: "Que
rito é este?" Comentando: Sexto: os versos 27b-28 assinalam o cumprimento da ordem divina para celebrar a Páscoa. Observações (1) A prescrição sobre a celebração da Páscoa (Ex 12.21-28) é legitimada pelo editor do livro de Êxodo. Assim, o cabeçalho deste capítulo (Ex 12.1) afirma que a prescrição da Páscoa (12.21-28) é autorizada por Javé. Eis a sua lógica: a) Javé comunica a Moisés e Aarão; (2) A celebração continuava a ser celebrada em família. A Bíblia ensina que a família constitui o fundamento para o projeto de sociedade que Deus propõe para a humanidade. (3) Foram mantidos vários elementos na celebração: ovelhas e ramos de hissopo (erva aromática). Evidentemente que houve algumas modificações, em razão da nova situação de vida do povo, agora, vivendo em Canaã. (4) Todavia, a antiga Páscoa foi "relida" e "re-significada". O antigo culto dos pastores semi-nômades possuía a função de controlar as forças da natureza. Por exemplo, os povos anteriores aos hebreus acreditavam que oferecendo em sacrifício o filho primogênito, poderia controlar a bênção e a ira divina. Como na cerimônia da primitiva páscoa, os pastores acreditavam que poderiam amenizar a ira divina do "vento destruidor". (5) Na verdade, o povo bíblico tomou antigos costumes dos povos vizinhos e os converteu em instrumentos de preservação e ensino da fé. No caso da Páscoa, o povo bíblico tomou uma cerimônia pagã, que girava em torno de uma magia, e a transformou em um sinal da presença salvadora de Javé. Em outras palavras, a nova celebração da Páscoa mostra que a fé não é um dado doutrinário ou mágico, mas um gesto história de Javé. IV. Da sedentarização do povo de Israel ao período monárquico. Após os acontecimentos que envolveram a saída
do Egito - a difícil caminhada pelos desertos, os muitos
"sinais e maravilhas" realizados por Javé e o
cumprimento da promessa de "uma terra que mana leite e mel"
- o povo bíblico juntou à idéia da Páscoa
aos acontecimentos acima descritos. A Páscoa dos nômades
deixou de ser uma cerimônia mágica que procurava
afugentar o medo do "exterminador", que se supunha estava
próximo, para se tornar uma afirmação concreta
da plena liberdade que Javé dá. - A celebração da Páscoa,
agora reformulada e "re-significada", passa afirmar O outro ritual da Páscoa, relatado em Êxodo
12.1-14, provavelmente, representa a segunda forma litúrgica
mais primitiva, entre todas incluídas no Antigo Testamento.
Ao tornar-se sedentário, o povo de Israel mudou substancialmente
seu sistema de vida: - A fé em Javé, através da celebração da Páscoa, tornou-se uma força transformadora; . do medo à coragem; - O sacrifício de um cordeiro deixa de ser
um simples sacrifício de sangue para se V. A Páscoa no período monárquico. - Há silêncio sobre a celebração
da Páscoa, exceto o profeta do Reino do Norte VI. Da celebração caseira para a cerimônia no Templo de Jerusalém. O rei Josias (642-609 antes de Cristo) empreendeu uma ampla reforma no Reino de Judá (O Reino de Israel já tinha sido destruído em 722 a.C.). - Por determinação do rei Josias,
a Páscoa passou a ser celebrada, oficialmente, - A reforma equipara a Páscoa a uma festa
de peregrinação (ver a coleção "Salmos
- O gado maior (boi ) passa a ser admitido como vítima para o sacrifício; - Surgiu a permissão para cozer a vítima, em lugar de assá-la; - A memória do êxodo do Egito continuou
sendo o motivo principal da celebração. VII. A Páscoa no exílio babilônico (598-537 anos antes de Cristo) Durante o exílio na Babilônia, o povo exilado desenvolveu a esperança de que Javé poderia libertar, de novo, Israel. Este tema é muito abordado pelo profeta anônimo do exílio, cujas palavras foram editadas no livro de Isaías, capítulos 40 a 55. - Desaparece a atividade cultual no Templo (destruído
em 587 a.C.). Surge a - Volta o sacrifício da rês menor (ovelhas e cabras); - A celebração volta para a família
e o ritual de sangue volta a ter o sentido de - Começou aparecer uma distinção
entre Páscoa e Ázimos, como celebrações
Festa dos Ázimos: nos dias 1 a 7 do primeiro
mês do ano; VIII. Páscoa no período Grego - Os livros de 1 e 2 Crônicas e Esdras indicam
que a Páscoa preservou alguma - O gado maior foi readmitido como parte da cerimônia; - A carne deve ser assada e não cozida; - O leigo executa o ritual de sangue (2 Cr 30.21; 35.11); - Páscoa e Ázimos voltam a integrarem-se; - O levita passa a ter um papel relevante na celebração; - A música passa a ser parte da celebração; - O copo de vinho passa a ser parte da cerimônia; Resumindo 1. A Páscoa pré-mosaica é marcada pelo medo do exterminador maxehit. O ritual tinha algo de "magia" para afugentar os males. É bom lembrar que, nessa época, o povo sacrificava os primogênitos recém-nascidos para ganhar favores divinos (conforme Gn 22); 2. O povo bíblico tomou todos os costumes e práticas pagãs e os passou pelo crivo da fé javista. Tanto no sacrifício dos primogênitos (Gn 22), como no ritual da Páscoa, o povo bíblico converteu tais cerimônias às práticas e confissões de fé javistas. Em ambas situações, o medo prendia as pessoas e forçava-as a praticarem cerimônias inúteis e criminosas. Foi Javé quem abriu os olhos do povo bíblico. Este se tornou um missionário entre as nações para anunciar as boas novas: "Não temais! Eis que vos trago uma boa nova que será para todo o povo" (Lc 2.10). A Páscoa anuncia o fim do medo e, conseqüentemente, a confirmação da confiança em Deus. 3. A celebração da Páscoa não é uma cerimônia de nostalgia do passado; não é uma festa da saudade onde heróis e heroínas são lembrados/as por seus atos de valentia; também não é um ritual que procura romantizar o passado, lembrando e homenageando certas figuras da história. 4. Na Bíblia, dois verbos sobressaem-se: "lembrar" e "esquecer". Quando a Bíblia apela para que o povo lembre dos grandes atos de Javé (conforme Ex 13.3), ela está procurando construir o futuro da nação. A memória dos grandes atos salvíficos de Deus mobiliza a fé da sociedade e fortalece o povo para esperar as boas novas do Reino de Deus. Esquecer o que Deus fez e faz significa a tragédia da humanidade. 5. Celebrar a Páscoa é resgatar os atos salvíficos de Deus no passado, acreditando que Ele possa fazer o mesmo, entre nós, no dia de hoje. A memória do passado salvífico - seja da libertação no Egito, seja da vida e obra de Jesus Cristo - restaura as forças dos/as crentes celebrantes para o testemunho. 6. Na verdade, a memória carrega o sentido
de redenção, seja dos atos salvíficos de
Deus, através da história, bem como a redenção
das causas justas do passado. Assim, a memória resgata
tanto a vida e obra de Jesus como a luta dos pobres pela dignidade
de viver. Pela memória, redimimos o desejo e a luta deles.
Assim, se esquecermos os desafios do povo de Deus no Antigo Testamento,
os ensinos de Jesus Cristo ou os anseios justos do povo fiel,
pomos a perder o sentido desses projetos. A intenção
da celebração da Páscoa afirmar que cada
geração de celebrante tem o dever de pôr em
prática os verdadeiros e justos projetos das gerações
do passado.
Extraído
do site da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista/Universidade
Metodista de São Paulo. Reprodução autorizada. |