ESTUDO Nº 1 TRAÇOS DA ESPERANÇA NA
BÍBLIA No Antigo Testamento temos: • a clara impressão que o povo bíblico vivia em um
clima de esperança;
A Tua salvação espero, ó Senhor! (Gn 49.18). • Observação: o germe do messianismo está na expectativa
da ação de Deus.
• O variado uso de verbos e substantivos, ligados à esperança, merece dos/as leitores/as da Bíblia uma análise mais profunda. A esperança do salmista não diz respeito a um mero anseio de sua mente, mas a sua expectativa está ligada a uma ação futura de Deus no mundo. • A língua hebraica possui muitas outras palavras que conduzem o sentido de "esperança". Entre elas estão: mabbat » esperança, expectativa (Zc 9.5; Is
20.5-6) Nascimento da esperança: • Um exemplo marcante do tema "esperança", pregada na Bíblia, está registrado no livro de Êxodo,
• Esta seqüência narrativa mostra ser a realidade do povo bíblico. Essa ação de Deus marcou tão profundamente a vida desses escravos e escravas, que eles instituíram uma celebração anual para lembrar esse acontecimento que lhes restaurou a vida plena entre eles e elas. O Salmo 136 é testemunha.
• A celebração da Ceia do Senhor ou Eucaristia, no Novo Testamento (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.14-20; 1 Co 11.16-34), está fundamentada na memória dos atos salvíficos de Deus em favor da vida plena de seu povo. A Igreja Cristã não pode esquecer da tradição guardada pelo Apóstolo Paulo:
• Portanto, para a Igreja Cristã, a forte expectativa da vinda do Messias Salvador concretizou-se com a chegada de Jesus. Após seu profético e frutífero ministério, morte na cruz e ressurreição, a comunidade dos discípulos e discípulas O chamou de Messias, isto é, Jesus Cristo. Desde então, a comunidade cristã celebra a Ceia do Senhor para celebrar Sua morte, ressurreição e anunciar Sua volta.
• O Antigo Testamento, ou Primeiro Testamento, conta que o povo bíblico esperou pela chegada de uma figura, não claramente definida, que viria fazer companhia em tempos de perda e angústia. "No ano da morte do rei Uzias..." (Is 6.1); "Mas para a terra que estava aflita..." (Is 9.1); "O povo que jazia em trevas..." (Mt 4.16). 1. O perfil da figura esperada • O papel dessa figura esperada é diverso e variado, mas através dos textos bíblicos pode-se vislumbrar algumas de suas características: a) Ele é um emissário e mediador de Deus (Sl 21); b) Ele é um protegido de Deus: c) Ele é governo de todo o universo. d) Ele é um governo diferenciado: e) Ele é um governo com o perfil pastoral: "Suscitarei sobre eles um só pastor, 2. O nome do esperado: Entre os vários nomes dado a esse emissário ou mediador de Deus,
estão: ESTUDO Nº 2 O CHAMADO DE ISAÍAS PARA SER PROFETA Alguns lembretes são necessários para os/as estudantes do Livro
do Emanuel: primeiro, a tradução é própria do autor deste
comentário, e segue a fraseologia do texto hebraico; segundo, este
comentário não acompanha os padrões da exegese clássica, de modo
pleno, mas procura destacar os elementos voltados para a compreensão
do Emanuel. (1) No ano da morte do rei Uzias. E eu vi Adonai sentado sobre um
trono alto e elevado. E suas barras enchiam o templo (2) Serafins
colocavam-se acima dele; seis asas para cada um. Com duas cobriam
seus rostos; com duas cobriam seus pés, e com duas flutuavam. (3) E
gritava um para o outro e dizia:
I. Referência histórica "No ano da morte do rei..." v. 1a. 1.2 Buscando entender o texto de Isaías 6.1-13 a) Circunstância do chamado divino: c) O chamado provoca perplexidade e objeção. (2) Deus não leva em consideração a condição social e econômica, nível de cultura, idade e pureza do/a vocacionado/a para exercer a missão profética; (3) A missão de uma pessoa vocacionada é destruir a maldade e a injustiça e construir a vida plena na sociedade humana. 2. Aprofundando o conhecimento da circunstância do chamado de Isaías. a) A ocorrência foi no Templo de Jerusalém. Esta dedução se impõe
por vários motivos:
Aprofundando a análise: (2) O Templo e o culto são também lugares onde se dão o chamado
divino; (4) A confissão de pecado e a purificação fazem parte da preparação para a missão do profeta.
Para analisar com profundidade esta questão, é preciso abordar dois pontos: 3.1. A extensão do Livro do Emanuel O Livro do Emanuel (Isaías 6.1-9.6) tem princípio, meio e fim. Ele começa com o chamado de Isaías (6.1-13) e termina com o anúncio da libertação de Israel (9.1-6). O miolo desse livro é a atividade profética de Isaías (7.1 - 8.22). 3.2 O momento do chamado profético e da profecia A frase que abre o Livro do Emanuel é freqüentemente desdenhada pelos/as leitores/as. "No ano da morte do rei Uzias" (6.1a). Contudo, é preciso prestar atenção nesta frase. Ela quer afirmar que: - profecia não é um conjunto de palavras (não necessariamente, cultual ou eclesiástico); - profecia é a interpretação da história e a leitura da vida do
povo, através de - profecia tem seu momento certo e devido.
- Ela quer indicar a data da morte de um grande rei de Judá; - Ela quer mostrar que a profecia é uma tarefa difícil, sombria e desafiadora. - Esta frase é, acima de tudo, uma afirmação profética e
teológica.
(1) O Livro do Emanuel deve ser analisado como um todo. Assim, a reportagem da vocação de Isaías (6.1-13) deve ser vista como o primeiro capítulo desse livro. Sem a sua leitura e compreensão, o/a leitor/a não entenderá seu conteúdo e objetivo. (2) A informação - "No ano da morte do rei Uzias" (v.1a) - é uma importante declaração de fé na atuação de Deus. Ele quer comunicar aos leitores/as que Deus está atento ao sofrimento do rei e à angústia do povo, enviando um profeta para anunciar que Ele não estava distante, mas presente: Imanuel, isto é, "conosco está Deus". (3) A reportagem de um chamado divino, para uma missão específica, é uma parte importante da Bíblia. Esses relatos querem destacar a legitimidade divina do profeta diante de tantos opositores à vontade de Deus. Particularmente, fica claro que no Livro do Emanuel o grande opositor era o rei Acaz e o seu medo de tomar a sério a palavra de Javé. (4) A próxima etapa, nessa descoberta do Emanuel, será Isaías
7.1-9. ESTUDO Nº 3A PRIMEIRA INTERVENÇÃO DE ISAÍAS COMO PROFETA (7.1-9)Isaías era uma pessoa ativa e freqüente nos cultos celebrados no Templo. O chamado divino mudou a direção de sua vida. Deus o chamou para ser Seu porta-voz em um momento muito crítico da política interna e externa: por um lado, o poderoso exército da Assíria estava próximo de invadir e dominar com crueldade as terras de Canaã, por outro, havia um profundo medo por parte dos reis de Israel e Judá. A sua primeira intervenção foi advertir, com muita coragem, o rei Acaz, de Judá. 1. O texto de Isaías 7.1-9. 1.1. Tradução
Introdução (contexto histórico) v. 1-2
Acerca da mensagem à Casa de Davi v. 2 Palavra de Javé a Isaías v. 3-9 1.3. Explicação da estrutura de Isaías 7.
1-9. 2. Interpretando o texto 2.1 A reportagem em torno da circunstância do diálogo Javé/Isaías e Acaz (v. 1-2). (1) Embora situando esse diálogo nos dias do governo de Acaz (736-716), o editor do Livro de Emanuel esforça-se por ligar esse evento (7.1-9) ao chamado de Isaías (6.1-13), acontecido logo após a morte do rei Uzias, o avô do atual governante. É bom notar que não há lamentos pelo falecimento do rei, mas uma imediata intervenção de Deus, vocacionando Isaías para a missão de congregar o povo em torno da confiança em Javé. (2) A reportagem focaliza uma ameaça de intervenção no governo de
Acaz, encabeçada por (3) A reportagem destaca um fator negativo na personalidade do rei: Acaz está com medo, e essa atitude é severamente condenada na Bíblia (v. 2 e 4). O medo do rei vem da informação que o exército arameu uniu-se ao de Efraim (Reino do Norte) e estava preparado para invadir Jerusalém. O medo de Acaz é o motivo principal da intervenção divina. Eis uma indicação de que a Bíblia não convive com o medo: "Portanto, não temeremos, Aprofundando a análise: O medo está sempre presente nos momentos decisivos de uma nova etapa da vida: o medo do povo hebreu diante de Faraó (Ex 14.10) e o medo imposto por Herodes aos pais de Jesus (Mt 2.13-15). O medo é novamente focalizado nos dias do rei Acaz. Assim, estamos diante do anúncio de uma boa nova para a humanidade. 2.2 Javé instrui o profeta Isaías sobre o medo de Acaz (v. 3-9). (1) Javé procura passar para o profeta Isaías a confiança que Ele não encontrou em Acaz. Ao ironizar os reis Rezin e Peca, Javé mostra a autoridade de seu governo sobre o mundo. A expressão "tocos de achas fumegantes" (v. 4b) reduz a ira dos dois reis à cinza, isto é, Javé quer dizer que eles representam um perigo que já passou. (2) Javé manda outras recomendações a Acaz: (4) Javé quer passar confiança ao rei Acaz. Por outro lado, Ele desconsidera a autoridade de Rezin e Peca por duas razões: Primeiro, Ele não os chama de rei, mas de "cabeça" (v. 8a e 9a).
Na Bíblia, rei é uma autoridade reconhecida por sua hereditariedade
e, conseqüentemente, pela legitimidade divina, através da unção.
Justificativa para essa desconsideração: Rezin e Peca não
pertencem a uma dinastia de reis. Também eles não possuem uma
tradição religiosa, isto é, não foram ungidos como rei, e,
finalmente, não mostram ter uma prática de fé. Em outras palavras,
eles não possuem legitimidade divina para exercer o mandato de
rei. "Se não crerdes, Esta é certamente a frase mais importante da perícope (Is 7.1-9).
Ela completa três afirmações de Javé, presentes no texto: b) "Não temas" (v. 4), também, deve ser entendido à luz da afirmação final - "se não crerdes (...) não permanecereis" (v. 9b). A lógica dessa afirmação é a razão que orienta o ensino bíblico: quem tem medo não crê em Javé ou quem tem medo desconfia (e quem desconfia está paralisado, não avança para a novidade de vida). O medo constitui-se em um empecilho para avançar para o reino que Javé propõe. c) O filho de Tabeal (v. 6b) não se estabelecerá (v. 7a), porque ele não tem parte com Javé e não pertence à dinastia de Davi, conforme 2 Samuel 7. 8-16). (6) A frase "Se não crerdes (...) não permanecereis" contém um
significado que ajuda a esclarecer a intenção do Livro de Emanuel.
Os dois verbos dessas duas frases fazem parte da mesma raiz verbal:
`mn. Dessa raiz vem o verbo `aman, cujo significado é confirmar,
sustentar, permanecer fiel, estabelecer-se, ser fiel, ter fé, crer.
Pertencem a esta mesma raiz as palavras: b) "Andando nos meus estatutos, c) "O justo pela fé viverá" (Rm 1.17). Dessa forma, Javé oferece duas alternativas para
Acaz:
1. Javé não está, primariamente, preocupado com o estrago que podem causar Rezin e Peca. Javé está consciente do que pode fazer pelo povo em Judá e Jerusalém. 2. A preocupação de Javé está concentrada no medo do rei Acaz e sua corte. O medo destrói a esperança e a capacidade de resistência do povo. Por essa razão, Javé procura injetar coragem e confiança no rei, através de três palavras: primeira, "Um-resto-volta" e manterá viva a esperança e a chance do povo, segundo, "não temer" aquelas "achas fumegantes", porque elas já se extinguiram; e, terceiro, o filho de Tabeal (v. 6b) não subirá a Jerusalém e não se estabelecerá como rei (v. 7a), pois não tem a legitimidade divina. 3.Javé procura reconstruir o povo a partir da capacidade de
confiar na atuação de seu Deus. Por isso, Ele adverte o rei Acaz: Se
ele e a sua liderança não crerem, a dinastia de Davi não permanecerá
(7.9b). Aqui, o texto afirma que a fé é, acima de tudo, confiar na
palavra de Deus. Assim, Acaz tem, diante de si, duas alternativas:
A primeira reafirma que um resto de fiéis a Javé voltará e confiará na ação divina. A segunda alternativa é trágica para Judá e o mundo, pois os seus líderes não conhecem e não agem de acordo com os critérios de Deus. Mas os argumentos de Javé e Isaías continuam no perícope seguinte (7. 10-17). ESTUDO Nº 4CONTINUAÇÃO DA DISPUTA ENTRE ISAÍAS E ACAZ (Is 7.10-17).Esta é a segunda cena da disputa entre o profeta Isaías e o medroso rei Acaz. Continua a preocupação do profeta com o rei e a sua corte, porque eles continuam a ter medo dos inimigos que ameaçam Judá e Jerusalém. Isso não é normal para uma liderança nacional, pois ter medo é perigoso para a integridade do povo. Diante desse perigo, o profeta manifesta um maior grau de preocupação. Ele tem pressa para solucionar essa crise e restaurar a vida plena no Reino de Judá. 1. O texto de Isaías 7.10-17. 1.1 Tradução (10) E acrescentou Javé uma palavra a Acaz dizendo: 1.2 Estrutura do texto Fórmula narrativa do discurso profético v. 10 Disputa entre Javé/Isaías e Acaz v. 11-17 b) Segunda parte da disputa v. 13-17 O texto de Isaías 7.10-17 descreve a segunda cena da disputa
entre Javé/Isaías e o rei Acaz. 2. Interpretando o texto. Esta perícope ou parágrafo (Is 7.10-17) tem estreitas relações com as duas anteriores, a saber, Is 6.1-13 e 7.1-9. Quatro motivos levam a tal conclusão: · primeiro, os relatos (6.1-2 e 7.1-2) são seqüenciais, sem
alterar a circunstância histórica; Todos estes argumentos reforçam a idéia de que os capítulos 6 a 9 formam realmente um só bloco, a saber, o Livro de Emanuel. A. A fórmula narrativa da palavra profética (v. 10) é pouco observada pelos/as leitores/as, por ser repetitiva e freqüente nos livros proféticos. Porém, tais fórmulas têm uma função especial nos pronunciamentos proféticos: são elas que comunicam a autoridade divina das palavras do oráculo. Ao mesmo tempo, é possível imaginar que o profeta estava falando para uma platéia desconfiada da autoridade profética. Por essa razão, as variadas fórmulas de introdução à palavra profética - "E veio a mim a palavra de Javé" ou "E disse Javé", incluindo a formulação de Is 7.10 - constituem-se autênticas declarações de legitimidade divina. B. Disputa entre Javé/Isaías e Acaz (v. 11-17). A disputa entre Javé/Isaías e Acaz continua (v. 11-12). Estes dois versos são marcados pela pressa. Na disputa, Isaías usa dois verbos no imperativo - "pede para ti um sinal" e "pede da profundeza" (v. 11) e Acaz responde de modo contundente com duas negativas: "não pedirei" e "não testarei a Javé" (v. 12). A pressa do profeta e a raiva do rei devem-se à permanência do medo de Acaz e de sua corte. No verso 16, o verbo qut com o sentido de amedrontar-se, no particípio, denuncia que o medo permanece presente entre os líderes da nação. A palavra profética (v. 13-17). Esta perícope (v. 10-17) é caracterizada como palavra de Javé (v. 10), comunicada pelo profeta Isaías (v. 11-17). A primeira parte da palavra do profeta está voltada para o
"sinal". Diante da ordem de Isaías - "Peça para ti um sinal de Javé,
teu Eloim" - Acaz recusa obedecer ao profeta (v. 12). Essa negativa
transforma-se na razão do pronunciamento do profeta (v. 13-17). O
que seria, então, o "sinal de Javé"? · mopet maravilha, milagre "... com provas, · zikaron memorial, lembrança. "E será como sinal `ot na tua mão, · totapot frontal, filactérios "E isto será como sinal `ot na tua mão, "Servirá de sinal e de testemunho a Javé (...) na terra do Egito..." (Is 19.20). · masah prova "Das grandes provas masah que viram os teus olhos,
Não é fácil desatar o nó do significado de `ot sinal em Isaías 7. 11 e 14. Porém, o uso de `ot sina, junto aos cinco substantivos mencionados acima, pode ajudar a clarear a questão. Primeiro, o uso secular de `ot sinal está ligado a preservação dos interesses da família (Nm 2.2) ou grupos em conflito (Sl 74.4). Os "sinais" são também estratégias de guerra. No uso secular o que é enfatizado é o seu caráter funcional. Por exemplo, a bandeira funciona como um instrumento sinalizador numa guerra. Segundo, o significado teológico de `ot sinal é abundante e fértil no Antigo Testamento. O grande exegeta Herman Gunkel definiu o ´sinal` como uma ação, uma ocorrência, um evento pelo qual uma pessoa reconhece, lê, lembra ou percebe a autenticidade de alguma coisa. Entretanto, é possível avançar um pouco além nesta compreensão, analisando a função e o significado de `ot sinal. O dado mais significativo que o Antigo Testamento acrescenta ao significado de "sinal" é que ele, freqüentemente, está ligado aos eventos históricos do êxodo. É bem verdade que o "sinal" está também relacionado à linguagem da criação ou da natureza, a saber: os luzeiros no firmamento (Gn 1.14), "Sinal", aqui, não é concessão de sabedoria especial ou poderes mágicos, tal como descrita na história das pragas do Egito (Ex 7.3 e 7.8- 13.16); - nem sinal de proteção, conforme Gn 4.15; Contudo, a recomendação de Isaías busca motivar o rei Acaz a crer na ação de Javé. As palavras que encerram a perícope anterior (7.1-9b) substanciam este argumento: "Se não credes (...) não permanecereis" (7.9b). A intenção do profeta Isaías é persuadir Acaz não temer a ameaça de Rezin e Peca. (7.4), mas a crer em Javé (7.9b). b) Ligado à questão do "sinal" está a negação de Acaz. Por que Acaz responde com certa violência ao profeta: "Não pedirei e não testarei Javé" (7. 12). Esta resposta esclarece a pressa de Isaías em interpelar o rei
que se fechou à palavra de Deus. Aparentemente, a disposição de "não
testar" ou "não tentar" a Javé pode parecer uma atitude elogiável de
Acaz, por estar de acordo com a tradição religiosa (Ex 17.2,7; Dt
6.16). Entretanto, Acaz está esquivando-se de assumir a fé. No
fundo, ele está se escondendo atrás de uma teologia montada sobre
textos piedosos, por causa do medo dos adversários. Tomar o caminho
da fé não é tentar Javé. d) A exegese bíblica, ao longo dos séculos, tem incorrido em dois perigos: · interpretar o sinal do Emanuel, isolando-o do contexto
histórico, descrito em 6.1-9.6. Estas duas preocupações têm engessado a discussão do real significado que encerra o anúncio de Emanuel. Por outro lado, esse sinal carrega dois aspectos que, aparentemente, se opõem. Mas é urgente analisar este sinal com responsabilidade: · Primeiro, Emanuel, no hebraico ´imanu`el, significa conosco (está) Deus (a transliteração fê-lo "Emanuel"). Apesar dos versículos 13-17 conterem uma ameaça, eles conduzem um sentido salvífico e pastoral. Duas razões apontam para isto: 1. O próprio nome - conosco (está) Deus - revela a intenção de passar confiança e certeza da presença de Deus, mesmo em meio às incertezas políticas. O anúncio de salvação, que o nome Emanuel encerra, é dirigido para o povo de Judá, e não para os medrosos e descrentes, a saber, Acaz e sua corte. 2. O conteúdo e a intenção salvífica do Imanuel estão indicados, também, na sua alimentação - "leite coalhado" e "mel" (v. 15) - própria da era da salvação, tal como pensava e esperava o povo a caminho da Terra Prometida (Ex 3.8,17; Dt 32.13-14). · Segundo, é preciso salientar que o Emanuel guarda e expressa o juízo de Deus sobre a corte de Jerusalém. Nesse oráculo de Isaías (7.10-17), o menino Emanuel vem para julgar a Casa de Davi e levá-la discernir entre o bem e o mal (v. 15b). e) A criança desempenha um papel destacado no Livro de Emanuel (7.3,14,16; 8.3-4). Isso não constitui novidade para uma das tradições messiânicas de Judá que tinha no menino e pastor Davi, o herói maior (1 Sm 16.1-13). Para as pessoas que viviam em torno dessa tradição de Davi, a entronização de dois reis-meninos - Joás (2 Rs 12.1-4) e Josias (2 Rs 22.1-2) - não representou dificuldade. f) Por fim, é preciso fazer uma referência ao termo hebraico ´almah jovem mulher (v. 14b). A tradução e interpretação da palavra ´almah tem trazido dois pontos de conflito: O primeiro ponto de conflito tem sido substanciado pela versão grega da Septuaginta, que traduziu a palavra hebraica ´almah com o termo grego parténos virgem. Como a língua original do Antigo Testamento é o hebraico, é recomendável que a leitura preferencial seja ´almah jovem mulher - uma moça até o nascimento do primeiro filho. O segundo ponto de conflito aponta uma tendência entre os intérpretes, que coloca no mesmo nível de significado a "jovem mulher" e o "Emanuel". Todavia, é preciso analisar as duas pessoas, salientando a figura de Emanuel como o eixo em torno do qual os capítulos 6 a 9 giram. CONSIDERAÇÕES FINAIS 1. O Livro de Emanuel quer mostrar que Deus chama o seu profeta num momento de angústia e crise do povo ("no ano da morte do rei Uzias" 6.1);
BIBLIOGRAFIA HARRIS, R. Laird et all. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. SCHOKEL, L. A. & SICRE J. L. Profetas 1 - Isaías, Jeremias. São Paulo: Paulinas, 1988. SCHWANTES, Milton. Isaías - textos selecionados. Vol. 1e 2. São Leopoldo: Setor de Publicações Faculdade de Teologia da IECLB, 1979. SICRE, J. Luis. De Davi ao Messias - textos básicos da esperança messiânica. Petrópolis: Vozes, 2002. VV.AA. In: Proclamar Libertação. Volumes: VI pg 198; XII pg 213;
XIII pg 104, XXI pg 37. Extraído do site da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista/Universidade Metodista de São Paulo. Reprodução autorizada. |