ESTUDO Nº 1

TRAÇOS DA ESPERANÇA NA BÍBLIA

No Antigo Testamento temos:

• a clara impressão que o povo bíblico vivia em um clima de esperança;
• a percepção do tema da esperança nos textos que relatam a fé e a história do povo.
• o valor e a importância da "esperança" é tão amplo quanto o seu vocabulário:

  1. seber no hebraico é esperança, cuja raiz é sbr aguardar, ter esperança.
    - Ampara-me, segundo a tua promessa, para que eu viva;
    Não permitas que a minha esperança me envergonhe (Sl 119.116).

    - Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio;
    cuja esperança está no Senhor seu Deus (Sl 146.5)
    .

    seber significa uma expectativa confiante no seu Deus, pois ele saber que Ele não desaponta os/as que O buscam e O obedecem.
    - Espero, Senhor, na Tua salvação, e cumpro os teus mandamentos. (Salmo 119. 166)

  2. Da raiz hebraica qwh, esperar, buscar com grande expectativa, surgiram dois substantivos: miqweh e tiqwah, ambos significando esperança, em meio às agressões dos malvados contra os justos.

    Mas os que esperam no Senhor,
    Renovam as suas forças;
    Sobem com asas como águias,
    Correm e não se cansam,
    Caminham e não se fatigam
    (Is 40.41).

A Tua salvação espero, ó Senhor! (Gn 49.18).

Observação: o germe do messianismo está na expectativa da ação de Deus.
A história bíblica, contada através dos hinos, revela que esperar com confiança e firmeza a libertação das agressões constitui uma grande expressão de fé.

    1. A palavra hebraica tohelet esperança possui o sentido de esperar com confiança e fé. O salmista pronuncia duas vezes o verbo yahal esperar na sua oração.

      Aguardo o Senhor,
      A minha vida O espera.
      A minha vida anseia pelo Senhor, (...)
      Espera no Senhor
      (Sl 130. 5-6).

      Espera, ó Israel, no Senhor,
      Desde agora e para sempre
      (Sl 131.3).

• O variado uso de verbos e substantivos, ligados à esperança, merece dos/as leitores/as da Bíblia uma análise mais profunda. A esperança do salmista não diz respeito a um mero anseio de sua mente, mas a sua expectativa está ligada a uma ação futura de Deus no mundo.

• A língua hebraica possui muitas outras palavras que conduzem o sentido de "esperança". Entre elas estão:

mabbat » esperança, expectativa (Zc 9.5; Is 20.5-6)
kesel » confiança, esperança (Pr 3.26; Jó 8.14)
hasah » buscar refúgio, confiar, esperar (Sl 118.8-9)
batah » confiar (Sl 16.9; 33.21).

Nascimento da esperança:

• Um exemplo marcante do tema "esperança", pregada na Bíblia, está registrado no livro de Êxodo,

- o anseio pela liberdade é movido pelo signo da esperança em um Deus que através de Moisés, poderia levá-los à concretização do sonho de liberdade. Um bom exemplo que caracteriza o nascer da esperança encontra-se no relato do chamado de Moisés. Nessa ampla reportagem, no livro de Êxodo, observamos dois detalhes:

a) A situação aflitiva do povo hebreu:
"...eu vi a aflição de meu povo no Egito" (Ex 3.7a);

b) A atenção de Deus para com o povo aflito:
"... e ouvi o seu clamor..." (Ex 3.7b).

c) A presença e o cuidado de Deus para com as pessoas carentes:
"... conheço-lhe o sofrimento" (Ex 3.7c).

d) A ação salvadora de Deus:
"por isso desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra boa e ampla, terra que mana leite e mel... (Ex 3.8).

• Esta seqüência narrativa mostra ser a realidade do povo bíblico. Essa ação de Deus marcou tão profundamente a vida desses escravos e escravas, que eles instituíram uma celebração anual para lembrar esse acontecimento que lhes restaurou a vida plena entre eles e elas. O Salmo 136 é testemunha.

Rendei graças ao Senhor!
           Eis que!
                Ele é bom.
          Eis que!
               A Sua bondade dura para sempre.
(...) Aquele que feriu o Egito...
(...) e tirou Israel do meio deles;
(...) com mão poderosa e braço estendido;
(...) Aquele que separou em duas partes o Mar Vermelho;
(...) e por entre elas fez passar a Israel;
(...) Aquele que conduziu o seu povo pelo deserto (...)

• A celebração da Ceia do Senhor ou Eucaristia, no Novo Testamento (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.14-20; 1 Co 11.16-34), está fundamentada na memória dos atos salvíficos de Deus em favor da vida plena de seu povo. A Igreja Cristã não pode esquecer da tradição guardada pelo Apóstolo Paulo:

(...) Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice,
anunciais a morte do Senhor, até que ele venha
(1 Co 11.26).

• Portanto, para a Igreja Cristã, a forte expectativa da vinda do Messias Salvador concretizou-se com a chegada de Jesus. Após seu profético e frutífero ministério, morte na cruz e ressurreição, a comunidade dos discípulos e discípulas O chamou de Messias, isto é, Jesus Cristo. Desde então, a comunidade cristã celebra a Ceia do Senhor para celebrar Sua morte, ressurreição e anunciar Sua volta.


A personificação da esperança

• O Antigo Testamento, ou Primeiro Testamento, conta que o povo bíblico esperou pela chegada de uma figura, não claramente definida, que viria fazer companhia em tempos de perda e angústia.

"No ano da morte do rei Uzias..." (Is 6.1);

"Mas para a terra que estava aflita..." (Is 9.1);

"O povo que jazia em trevas..." (Mt 4.16).

1. O perfil da figura esperada

• O papel dessa figura esperada é diverso e variado, mas através dos textos bíblicos pode-se vislumbrar algumas de suas características:

a) Ele é um emissário e mediador de Deus (Sl 21);
Pois o puseste por bênção para sempre... (Sl 21.6a).
Ali farei brotar a força de Davi; prepararei uma lâmpada para o meu Ungido (Sl 132.17).

b) Ele é um protegido de Deus:
Agora sei que o Senhor salva o seu Ungido (Sl 20.6a).

c) Ele é governo de todo o universo.
Domine Ele de mar a mar...
  Curvem-se diante dele os habitantes do deserto...
  E todos os reis se prostrem perante Ele
(Sl 72. 9-11).

d) Ele é um governo diferenciado:
"...e o seu nome será: Maravilhoso,
                                   Conselheiro,
                                   Deus Forte,
                                   Pai da Eternidade,
                                   Príncipe da paz
(Is 9.6)

e) Ele é um governo com o perfil pastoral:
"Ele se erguerá e apascentará o povo na força do Senhor,
na majestade do nome do Senhor, seu Deus;
(...)
Ele será engrandecido até os confins da terra.
Este será a nossa paz"
(Mq 5.4-5).

"Suscitarei sobre eles um só pastor,
e ele as apascentará....
ele lhes servirá de pastor"
(Ez 34.23).

2. O nome do esperado:

Entre os vários nomes dado a esse emissário ou mediador de Deus, estão:

a) Siló
O cetro não se arredará de Judá,
Nem o bastão de entre seus pés,
          Até que venha Silo; e a ele obedecerão os povos
(Gn 49.10).

b) Imanuel ou Emanuel
Portanto, o Senhor vos dará um sinal:
Eis! A jovem mulher conceberá
     e dará à luz um filho,
e lhe chamará Imanuel
(Is 7.14).

ESTUDO Nº 2

O CHAMADO DE ISAÍAS PARA SER PROFETA

Alguns lembretes são necessários para os/as estudantes do Livro do Emanuel: primeiro, a tradução é própria do autor deste comentário, e segue a fraseologia do texto hebraico; segundo, este comentário não acompanha os padrões da exegese clássica, de modo pleno, mas procura destacar os elementos voltados para a compreensão do Emanuel.

1. O texto de Isaías 6.1-13

(1) No ano da morte do rei Uzias. E eu vi Adonai sentado sobre um trono alto e elevado. E suas barras enchiam o templo (2) Serafins colocavam-se acima dele; seis asas para cada um. Com duas cobriam seus rostos; com duas cobriam seus pés, e com duas flutuavam. (3) E gritava um para o outro e dizia:
Santo, santo, santo, Javé Sebaote (dos exércitos)!
Cheia está toda a terra de sua glória!
(4) E tremiam os pinos da soleira por causa da voz que gritava. E a casa (templo) enchia-se com fumaça.
(5) E eu disse:
Ai de mim!
Eis que! Eu estou destruído!
Eis que! Um homem de impuros lábios eu sou.
E em meio a um povo de impuros lábios eu habito.
Eis que! Javé Sebaote viu meus olhos.
(6) E voou para mim um dos serafins, e em sua mão uma brasa, com uma espevitadeira tirara de cima do altar. (7) E fez tocar minha boca e disse:
Eis! Isso tocou em teus lábios.
E se afasta tua culpa,
E teu pecado está perdoado.
(8) E eu ouvi a voz de Adonai dizendo:
A quem enviarei?
E quem irá por nós?
(9) E eu disse:
Eis-me! Envia-me!
E ele disse:
Vai e fala a este povo:
Ouçam insistentemente, mas não entendais!
Olhem continuamente, mas não compreendais!
(10) Torna gordo o coração deste povo,
e seus ouvidos faze pesados!
E seus olhos torna grudados!
Para que não olhe com seus olhos!
E com seus ouvidos não ouça!
E seu coração não entenda!
E seu coração entenda,
e converta,
e se cure!
(11) E eu disse:
Até quando Adonai?
E ele disse:
Até que se devastem cidades sem morador
e casas sem pessoas.
E o solo se desolando em deserto.
(12) E Javé afastará para longe o ser humano, e haverá muito abandono em meio à terra. (13) E ainda houver nela uma décima parte, será destruída novamente como uma árvore majestosa e como uma árvore grande que na derrubada deixam estela nela, semente santa sua estela.


1.1 A estrutura do texto de Isaías 6.1-13

I. Referência histórica "No ano da morte do rei..." v. 1a.
II. Reportagem do chamado do profeta Isaías v. 1b-13
A. Observações iniciais do profeta v. 1b-4
1. Visão de Javé e dos serafins v. 1b-2
2. Audição de uma doxologia v. 3
3. As circunstâncias v. 4
B. Reação do profeta Isaías: lamentação v. 5
1. "Ai de mim, estou perdido"
2. "Sou um homem de lábios impuros..."
2. "Os meus olhos viram o rei..."
C. A purificação de Isaías v. 6-7
1. O vôo do Serafe até Isaías v. 6
2. A purificação v. 7
a. O toque nos lábios
b. O oráculo de purificação
D. O diálogo entre Javé e Isaías v. 8
1. Questão de Javé - "Quem hei de enviar? (...)
2. Resposta de Isaías - "Eis-me aqui (...)
E. A missão de Isaías v. 9-13
1. Palavra de Javé v. 9-10
a. Introdução v. 9a.
b. Conteúdo da mensagem v. 9b
c. Interpretando a mensagem de Javé v. 10
2. Questão de Isaías "Até quando, Senhor?" v. 11a.
3. Resposta de Javé v. 11b-13

1.2 Buscando entender o texto de Isaías 6.1-13
É muito importante entender que o capítulo 6 possui duas partes: a primeira refere-se à informação da data do chamado do profeta - "No ano da morte do rei Uzias" (v. 1a); a segunda parte mostra a reportagem do chamado de Isaías (v. 1b-13). Tanto uma quanto a outra constituem-se declarações de fé em Javé, o Deus do povo bíblico que - ao ver o povo inseguro e aflito, e ameaçado e mal liderado - interveio na sua história, anunciando que Deus estava presente em sua luta.


2. Comparando esta perícope com outros relatos bíblicos paralelos

Isaías 6.1-13 é uma reportagem do mesmo estilo literário encontrado em alguns textos importantes da Bíblia:

Êxodo 3.1-11 (Moisés),
Juízes 6.1-18 (Gedeão),
e Jeremias 1.4-10 (Jeremias)

É interessante perceber que a reportagem do chamado de Isaías possui quatro momentos que coincidem com as narrativas acima mencionadas, a saber:

a) Circunstância do chamado divino:
- do chamado de Moisés = o povo hebreu era escravo no Egito;
- do chamado de Gedeão = luta pelo assentamento em Canaã;
- do chamado de Isaías = Guerra Siro-efraimita e morte de Uzias;
- do chamado de Jeremias = luta entre Egito e Babilônia pela posse de Canaã

b) O chamado divino tem por finalidade a missão:
- Moisés: libertar o povo hebreu da escravidão (Ex 3.8-10);
- Gedeão: libertar os hebreus das mãos dos midianitas (Jz 6.14);
- Isaías: resgatar, no rei Acaz e no povo de Judá, a fé em Javé (Is 7.9);
- Jeremias: derrubar o inútil e construir e plantar a vida plena (Jr 1.10).

c) O chamado provoca perplexidade e objeção.
- Moisés: "quem sou eu para ir... e tirar do Egito os filhos de Israel?" (Ex 3.11);
- Gedeão: "... a minha família é a mais pobre em Manasses" (Jz 6.15);
- Isaías: " Sou um homem de lábios impuros..." (Is 6.5);
- Jeremias: "...não sei falar , porque não passo de uma criança" (Jr 1.6).

d) O chamado divino e a ocupação de cada um..
- Moisés: "apascentava o rebanho de Jetro" (Ex 3.1-6);
- Gedeão: "... malhava o trigo no lagar..." (Jz 6.11);
- Isaías: meditava no Templo de Jerusalém (Is 6.1-2);
- Jeremias: envolvido em atividades de adolescentes (Jr 1.6).

Aprofundando a análise:

(1) A chamado divino, segundo a Bíblia, ocorre em um momento de grande crise e angústia do povo;

(2) Deus não leva em consideração a condição social e econômica, nível de cultura, idade e pureza do/a vocacionado/a para exercer a missão profética;

(3) A missão de uma pessoa vocacionada é destruir a maldade e a injustiça e construir a vida plena na sociedade humana.

2. Aprofundando o conhecimento da circunstância do chamado de Isaías.

a) A ocorrência foi no Templo de Jerusalém. Esta dedução se impõe por vários motivos:

- o Senhor sentado sobre um trono (v. 1),
- faz menção do Templo como local da visão (v. 1),
- as visões de Javé e os serafins com seus cânticos de louvores (v. 2b-3),
- o termo hebraico bait casa funciona como sinônimo de templo (v. 4),
- o uso do nome Javé dos Exércitos é próprio de Jerusalém (v. 5),
- o ato de purificação é próprio do templo de Jerusalém (v. 5),
- a espevitadeira é um objeto que faz parte do altar do Templo (v. 6).


b) O chamado de Isaías só acontece após
a visão (v. 1b-2),
a audição (v. 3),
a sua confissão de pecado (v. 5)
e a sua purificação (v. 6-7).

Aprofundando a análise:

(1) O relato de Is 6.1-13 descarta a possibilidade do profeta estar dormindo e sonhando ou desfrutando momentos de êxtase. Isaías permanece plenamente consciente.

(2) O Templo e o culto são também lugares onde se dão o chamado divino;

(3) O pecado de Isaías não impediu que Deus o chamasse para ser um profeta;

(4) A confissão de pecado e a purificação fazem parte da preparação para a missão do profeta.


3. A importância do chamado de Isaías para o Livro do Emanuel

Para analisar com profundidade esta questão, é preciso abordar dois pontos:

3.1. A extensão do Livro do Emanuel

O Livro do Emanuel (Isaías 6.1-9.6) tem princípio, meio e fim. Ele começa com o chamado de Isaías (6.1-13) e termina com o anúncio da libertação de Israel (9.1-6). O miolo desse livro é a atividade profética de Isaías (7.1 - 8.22).

3.2 O momento do chamado profético e da profecia

A frase que abre o Livro do Emanuel é freqüentemente desdenhada pelos/as leitores/as.

"No ano da morte do rei Uzias" (6.1a).

Contudo, é preciso prestar atenção nesta frase. Ela quer afirmar que:

- profecia não é um conjunto de palavras (não necessariamente, cultual ou eclesiástico);

- profecia é a interpretação da história e a leitura da vida do povo, através de
pessoas autorizadas e legitimadas pela palavra de Deus;

- profecia tem seu momento certo e devido.


3.3 A importância da frase "No ano da morte do rei Uzias" (Is 6.1a)

- Ela quer indicar a data da morte de um grande rei de Judá;

- Ela quer mostrar que a profecia é uma tarefa difícil, sombria e desafiadora.

- Esta frase é, acima de tudo, uma afirmação profética e teológica.
Ela quer dizer que quando a esperança do povo se esgota, Deus intervém em favor do povo e passa a agir. É partir da morte de um grande rei, Uzias, e de um momento sombrio, que o profeta anuncia o Emanuel.


O Emanuel visto a partir do chamado de Isaías:

(1) O Livro do Emanuel deve ser analisado como um todo. Assim, a reportagem da vocação de Isaías (6.1-13) deve ser vista como o primeiro capítulo desse livro. Sem a sua leitura e compreensão, o/a leitor/a não entenderá seu conteúdo e objetivo.

(2) A informação - "No ano da morte do rei Uzias" (v.1a) - é uma importante declaração de fé na atuação de Deus. Ele quer comunicar aos leitores/as que Deus está atento ao sofrimento do rei e à angústia do povo, enviando um profeta para anunciar que Ele não estava distante, mas presente: Imanuel, isto é, "conosco está Deus".

(3) A reportagem de um chamado divino, para uma missão específica, é uma parte importante da Bíblia. Esses relatos querem destacar a legitimidade divina do profeta diante de tantos opositores à vontade de Deus. Particularmente, fica claro que no Livro do Emanuel o grande opositor era o rei Acaz e o seu medo de tomar a sério a palavra de Javé.

(4) A próxima etapa, nessa descoberta do Emanuel, será Isaías 7.1-9.

ESTUDO Nº 3

A PRIMEIRA INTERVENÇÃO DE ISAÍAS COMO PROFETA (7.1-9)

Isaías era uma pessoa ativa e freqüente nos cultos celebrados no Templo. O chamado divino mudou a direção de sua vida. Deus o chamou para ser Seu porta-voz em um momento muito crítico da política interna e externa: por um lado, o poderoso exército da Assíria estava próximo de invadir e dominar com crueldade as terras de Canaã, por outro, havia um profundo medo por parte dos reis de Israel e Judá. A sua primeira intervenção foi advertir, com muita coragem, o rei Acaz, de Judá.

1. O texto de Isaías 7.1-9.

1.1. Tradução
(1) E aconteceu nos dias de Acaz, filho de Jotão, filho de Uzias, rei de Judá,
subiu Rezin, rei de Aram, e Peca, filho de Remalias, rei de Israel, a Jerusalém para a guerra contra ela, mas não prevaleceu guerreando contra ela. (2) E foi anunciado à casa de Davi, dizendo: Aram estabeleceu-se em Efraim. E fez tremer seu coração e o coração de seu povo como tremem as árvores da mata diante do vento. (3) E disse Javé a Isaías: vai agora para encontrar Acaz, tu e um Um-resto-volta, teu filho, para a extremidade do canal do Lago Superior, na estrada do campo do lavador, (4) e tu dize a ele:
Esteja atento
e tenha tranqüilidade;
não temas e
não vacila teu coração por causa dos dois tocos de achas fumegantes;
por causa do ardor da ira de Rezin e Aram
e o filho de Remalias:
(5) Por causa disso, atenção!
Aram,
Efraim e o filho de Remalia
planejaram contra ti maldade, dizendo:
(6) Subiremos contra Judá,
e amedrontemo-la,
e conquistemo-la para nós,
e instalaremos um rei em seu meio, o filho de Tabeal.
(7) Assim diz Adonai Javé:
Não erguerá!
e não acontecerá!
(8) Eis que!
O cabeça de Aram (é) Damasco,
O cabeça de Damasco (é) Rezim.
E em 65 anos, destruirá Efraim a partir do povo.
(9) E o cabeça de Efraim (é) Samaria,
e o cabeça de Samaria (é) o filho de Remalias.
Se não confiardes,
atenção!
Não permanecereis.


1.2 A estrutura do texto

Introdução (contexto histórico) v. 1-2

Acerca da invasão v. 1
a) A invasão v. 1a.
Cronologia
Reportagem da invasão

b) Conseqüência da invasão v. 1b

Acerca da mensagem à Casa de Davi v. 2
a) A mensagem v. 2 a
b) Conseqüência v. 2b

Palavra de Javé a Isaías v. 3-9
a) Introdução narrativa v. 3
b) Fórmula do mensageiro v. 3a.
c) Comissão dada a Isaías v. 3b
"ir"
destinatário
endereço
d) Conteúdo da comissão v. 4-9
Cuidado quanto aos inimigos v. 4-6
- parenese (breve advertência) v. 4
Exortação (expresso positivamente)
admoestação (expresso negativamente)
- Com referência aos planos dos inimigos v. 5-6
Introdução v. 5
Citação v. 6
A respeito da cidade de Jerusalém
A respeito do rei de Jerusalém
e) Conclusão: palavra de reafirmação v. 7-9
Fórmula do mensageiro v. 7a.
a própria palavra v. 7b-9
- anúncio de advertência v. 7b-9a.
- declaração básica v. 7b
- desdobramento v. 8-9a.
Palavra de ameaça v. 9a.

1.3. Explicação da estrutura de Isaías 7. 1-9.
Esta perícope ou parágrafo é uma reportagem sobre as circunstâncias do diálogo entre Isaías, o porta-voz de Javé, e o rei Acaz (736-716 anos antes de Cristo). O assunto gira em torno da tentativa de ataque da coligação Siro-Efraimita contra Jerusalém, caso o rei Acaz não ofereça apoio a tal empreendimento (v. 1-2). Diante dessa ameaça, Javé instrui o profeta Isaías para criticar a postura medrosa de Acaz. A perícope gira em torno do medo do rei (v. 2 e 4) e a instrução de Javé, através de Isaías (v. 3-9), focaliza a única alternativa para Acaz: "se não confiardes (...) não permanecereis" (v. 9b).

2. Interpretando o texto

2.1 A reportagem em torno da circunstância do diálogo Javé/Isaías e Acaz (v. 1-2).

(1) Embora situando esse diálogo nos dias do governo de Acaz (736-716), o editor do Livro de Emanuel esforça-se por ligar esse evento (7.1-9) ao chamado de Isaías (6.1-13), acontecido logo após a morte do rei Uzias, o avô do atual governante. É bom notar que não há lamentos pelo falecimento do rei, mas uma imediata intervenção de Deus, vocacionando Isaías para a missão de congregar o povo em torno da confiança em Javé.

(2) A reportagem focaliza uma ameaça de intervenção no governo de Acaz, encabeçada por
dois reis vizinhos ao Reino de Judá (v. 2a). Essa ameaça possibilita-nos a datar esse acontecimento: a Guerra Siro-Efraimita ocorreu por volta do ano 734 anos antes de Cristo.

(3) A reportagem destaca um fator negativo na personalidade do rei: Acaz está com medo, e essa atitude é severamente condenada na Bíblia (v. 2 e 4). O medo do rei vem da informação que o exército arameu uniu-se ao de Efraim (Reino do Norte) e estava preparado para invadir Jerusalém. O medo de Acaz é o motivo principal da intervenção divina. Eis uma indicação de que a Bíblia não convive com o medo:

"Portanto, não temeremos,
ainda que a terra se transtorne,
e os montes se abalem... (Sl 46.2).

Aprofundando a análise:

O medo está sempre presente nos momentos decisivos de uma nova etapa da vida: o medo do povo hebreu diante de Faraó (Ex 14.10) e o medo imposto por Herodes aos pais de Jesus (Mt 2.13-15). O medo é novamente focalizado nos dias do rei Acaz. Assim, estamos diante do anúncio de uma boa nova para a humanidade.

2.2 Javé instrui o profeta Isaías sobre o medo de Acaz (v. 3-9).

(1) Javé procura passar para o profeta Isaías a confiança que Ele não encontrou em Acaz. Ao ironizar os reis Rezin e Peca, Javé mostra a autoridade de seu governo sobre o mundo. A expressão "tocos de achas fumegantes" (v. 4b) reduz a ira dos dois reis à cinza, isto é, Javé quer dizer que eles representam um perigo que já passou.

(2) Javé manda outras recomendações a Acaz:
Sê atento!
Tenha tranqüilidade!
Não temas!
Não desanime teu coração! (v. 4a).

(3) Medo é palavra proibida para Javé. Em outras palavras, o rei Acaz está proibido de ter medo, diante da ameaça de Rezin e Peca (v. 5-6), pois Javé declara que está presente ao lado do povo de Judá, e reafirma que o exército dos dois reis não subirá a Jerusalém e a invasão não acontecerá (v. 7).

(4) Javé quer passar confiança ao rei Acaz. Por outro lado, Ele desconsidera a autoridade de Rezin e Peca por duas razões:

Primeiro, Ele não os chama de rei, mas de "cabeça" (v. 8a e 9a). Na Bíblia, rei é uma autoridade reconhecida por sua hereditariedade e, conseqüentemente, pela legitimidade divina, através da unção.
Segundo, Ele desconhece o rei do Reino do Norte (Israel) e chama-o de "filho de Remalias" (v. 1, 5 e 9).

Justificativa para essa desconsideração: Rezin e Peca não pertencem a uma dinastia de reis. Também eles não possuem uma tradição religiosa, isto é, não foram ungidos como rei, e, finalmente, não mostram ter uma prática de fé. Em outras palavras, eles não possuem legitimidade divina para exercer o mandato de rei.

(5) Contudo, a palavra mais importante de Javé a Acaz e sua corte é crer ou ser firme na fé (v. 9b). A frase é poeticamente perfeita e prenhe de significado:

"Se não crerdes,
Presta atenção, (Acaz)!
não permanecereis" (v. 9b).

Esta é certamente a frase mais importante da perícope (Is 7.1-9). Ela completa três afirmações de Javé, presentes no texto:

a) "Um-resto-volta" (v. 3) quer dizer que, apesar da ameaça de Rezin e Peca, ainda há chance para Jerusalém não ser tomado pelos inimigos. Mesmo que Acaz não sobreviva ao ataque inimigo, um "resto voltará" para dar continuidade à linha dinástica de Davi. Porém, o oráculo que advertir: para que a salvação se realize, em Jerusalém, é preciso que o rei e sua corte se convertam e se tornem fiéis.

b) "Não temas" (v. 4), também, deve ser entendido à luz da afirmação final - "se não crerdes (...) não permanecereis" (v. 9b). A lógica dessa afirmação é a razão que orienta o ensino bíblico: quem tem medo não crê em Javé ou quem tem medo desconfia (e quem desconfia está paralisado, não avança para a novidade de vida). O medo constitui-se em um empecilho para avançar para o reino que Javé propõe.

c) O filho de Tabeal (v. 6b) não se estabelecerá (v. 7a), porque ele não tem parte com Javé e não pertence à dinastia de Davi, conforme 2 Samuel 7. 8-16).

(6) A frase "Se não crerdes (...) não permanecereis" contém um significado que ajuda a esclarecer a intenção do Livro de Emanuel. Os dois verbos dessas duas frases fazem parte da mesma raiz verbal: `mn. Dessa raiz vem o verbo `aman, cujo significado é confirmar, sustentar, permanecer fiel, estabelecer-se, ser fiel, ter fé, crer. Pertencem a esta mesma raiz as palavras:

`amen certamente, de fato, amém.
`omen fidelidade, verdade.
`emunah firmeza, fidelidade, lealdade, segurança.
`emet firmeza, fé, verdade.
`aman artista de mão firme.

O uso duplo da raiz `mn, em Isaías 7.9b, é extremamente significativo para a intenção do Livro de Emanuel, bem como de todo o ensino que a Bíblia que transmitir. Esta mesma raiz é usada em textos bíblicos que constituem pilares do ensino e prática bíblica:

a) "O justo viverá por sua `emunah fidelidade" (Hab 2.4b).

b) "Andando nos meus estatutos,
e guardando os meus juízos,
praticando a verdade,
Justo ele será e viverá - declaração do Senhor Javé" (Ez 18.9).

c) "O justo pela fé viverá" (Rm 1.17).

Dessa forma, Javé oferece duas alternativas para Acaz:

Crer é permanecer como líder do povo;
Não crer é o fim da dinastia e constitui um desastre para o povo.


Concluindo

1. Javé não está, primariamente, preocupado com o estrago que podem causar Rezin e Peca. Javé está consciente do que pode fazer pelo povo em Judá e Jerusalém.

2. A preocupação de Javé está concentrada no medo do rei Acaz e sua corte. O medo destrói a esperança e a capacidade de resistência do povo. Por essa razão, Javé procura injetar coragem e confiança no rei, através de três palavras: primeira, "Um-resto-volta" e manterá viva a esperança e a chance do povo, segundo, "não temer" aquelas "achas fumegantes", porque elas já se extinguiram; e, terceiro, o filho de Tabeal (v. 6b) não subirá a Jerusalém e não se estabelecerá como rei (v. 7a), pois não tem a legitimidade divina.

3.Javé procura reconstruir o povo a partir da capacidade de confiar na atuação de seu Deus. Por isso, Ele adverte o rei Acaz: Se ele e a sua liderança não crerem, a dinastia de Davi não permanecerá (7.9b). Aqui, o texto afirma que a fé é, acima de tudo, confiar na palavra de Deus. Assim, Acaz tem, diante de si, duas alternativas:

Primeira, crer na promessa de Deus e "aquietar-se", esperando a ação divina;
Segunda, temer e "agitar o seu coração", aguardando pelo pior.

A primeira reafirma que um resto de fiéis a Javé voltará e confiará na ação divina. A segunda alternativa é trágica para Judá e o mundo, pois os seus líderes não conhecem e não agem de acordo com os critérios de Deus.

Mas os argumentos de Javé e Isaías continuam no perícope seguinte (7. 10-17).


ESTUDO Nº 4

CONTINUAÇÃO DA DISPUTA ENTRE ISAÍAS E ACAZ (Is 7.10-17).

Esta é a segunda cena da disputa entre o profeta Isaías e o medroso rei Acaz. Continua a preocupação do profeta com o rei e a sua corte, porque eles continuam a ter medo dos inimigos que ameaçam Judá e Jerusalém. Isso não é normal para uma liderança nacional, pois ter medo é perigoso para a integridade do povo. Diante desse perigo, o profeta manifesta um maior grau de preocupação. Ele tem pressa para solucionar essa crise e restaurar a vida plena no Reino de Judá.

1. O texto de Isaías 7.10-17.

1.1 Tradução

(10) E acrescentou Javé uma palavra a Acaz dizendo:
(11) Pede para ti um sinal de Javé, teu Eloim;
Pede da profundeza;
ou pede da altura da de cima.
(12) E disse Acaz: Não pedirei
e não testarei Javé.
(13) E disse:
Ouvi, agora, Casa de Davi!
Não vos basta cansardes homens?
Eis que! Quereis fatigas também meu Eloim?
(14) Por isso dará Adonai para vós um sinal.
Eis! A jovem mulher conceberá
e dará à luz um filho,
e chamará seu nome Imanuel.
(15) Leite coalhado e mel ele comerá
para que saiba rejeitar o mal
e escolher o bem.
(16) Eis que! Antes que saiba o rapaz rejeitar o mal
e escolher o bem,
será abandonada a terra cultivável
diante de cujos dois reis tu tens medo.
(17) Javé fará vir contra ti,
contra teu povo,
e contra a casa de teu pai,
dias como não vieram desde o dia
em que Efraim se afastou de Judá.
O rei da Assíria.

1.2 Estrutura do texto

Fórmula narrativa do discurso profético v. 10

Disputa entre Javé/Isaías e Acaz v. 11-17
a) Primeira parte da disputa v. 11-12
Ordem de Isaías a Acaz: "pede um sinal!" v. 11
Resposta de Acaz: "não pedirei e não testarei" v. 12

b) Segunda parte da disputa v. 13-17
Questão retórica de Isaías v. 13
Isaías anuncia o sinal: o nascimento de Imanuel v. 14-17
- o anúncio do nascimento de Imanuel v. 14
- elaboração sobre o significado do sinal v. 15-17
sobre a alimentação da criança v. 15
explicação sobre o tempo da intervenção assíria v. 16-17.

Explicação da estrutura do texto

O texto de Isaías 7.10-17 descreve a segunda cena da disputa entre Javé/Isaías e o rei Acaz.
A estrutura exposta acima tem a função de um "Raio X" que procura mostrar a formação literária que sustenta os argumentos do texto. Assim, os versos 10-12 constituem a base sobre a qual os demais versos (v. 14-17) estão convergindo-se. Por exemplo, o anúncio de Emanuel acontece em razão da recusa de Acaz pelo sinal (v. 14). Os versos 15-17 são elaborações sobre o significado do sinal. Evidentemente que a função do verso 10 é legitimar toda a perícope (7.10-17).

2. Interpretando o texto.

Esta perícope ou parágrafo (Is 7.10-17) tem estreitas relações com as duas anteriores, a saber, Is 6.1-13 e 7.1-9. Quatro motivos levam a tal conclusão:

· primeiro, os relatos (6.1-2 e 7.1-2) são seqüenciais, sem alterar a circunstância histórica;
· segundo, a continuação da crítica profética ao medo do rei Acaz (v. 16);
· terceiro, o verso 14 faz voltar a figura da criança (v. 3);
· e, quarto, a expressão verbal "e acrescentou" (v.10) liga esta perícope (v. 10-17) à anterior (v. 1-9).

Todos estes argumentos reforçam a idéia de que os capítulos 6 a 9 formam realmente um só bloco, a saber, o Livro de Emanuel.

A. A fórmula narrativa da palavra profética (v. 10) é pouco observada pelos/as leitores/as, por ser repetitiva e freqüente nos livros proféticos. Porém, tais fórmulas têm uma função especial nos pronunciamentos proféticos: são elas que comunicam a autoridade divina das palavras do oráculo. Ao mesmo tempo, é possível imaginar que o profeta estava falando para uma platéia desconfiada da autoridade profética. Por essa razão, as variadas fórmulas de introdução à palavra profética - "E veio a mim a palavra de Javé" ou "E disse Javé", incluindo a formulação de Is 7.10 - constituem-se autênticas declarações de legitimidade divina.

B. Disputa entre Javé/Isaías e Acaz (v. 11-17).

A disputa entre Javé/Isaías e Acaz continua (v. 11-12).

Estes dois versos são marcados pela pressa. Na disputa, Isaías usa dois verbos no imperativo - "pede para ti um sinal" e "pede da profundeza" (v. 11) e Acaz responde de modo contundente com duas negativas: "não pedirei" e "não testarei a Javé" (v. 12).

A pressa do profeta e a raiva do rei devem-se à permanência do medo de Acaz e de sua corte. No verso 16, o verbo qut com o sentido de amedrontar-se, no particípio, denuncia que o medo permanece presente entre os líderes da nação.

A palavra profética (v. 13-17).

Esta perícope (v. 10-17) é caracterizada como palavra de Javé (v. 10), comunicada pelo profeta Isaías (v. 11-17).

A primeira parte da palavra do profeta está voltada para o "sinal". Diante da ordem de Isaías - "Peça para ti um sinal de Javé, teu Eloim" - Acaz recusa obedecer ao profeta (v. 12). Essa negativa transforma-se na razão do pronunciamento do profeta (v. 13-17). O que seria, então, o "sinal de Javé"?

A palavra hebraica, em Is 7.11 e 14, é `ot. Há vários sinônimos de `ot sinal no Antigo Testamento:

· mopet maravilha, milagre

"... com provas,
com sinais `ot,
e com milagres mopet,
e com peleja,
e com mão poderosa
e com braço estendido,
e com grandes espanto... (Dt 4.34).

· zikaron memorial, lembrança.

"E será como sinal `ot na tua mão,
e por memorial zikaron entre teus olhos..." (Ex 13.9).

· totapot frontal, filactérios

"E isto será como sinal `ot na tua mão,
e por frontais totapot entre os teus olhos..." (Ex 13.16).

· ´edut testemunha, sinal de advertência.

"Servirá de sinal e de testemunho a Javé (...) na terra do Egito..." (Is 19.20).

· masah prova

"Das grandes provas masah que viram os teus olhos,
e dos sinais e maravilhas,
e mão poderosa e braço estendido... (Dt 7.19).


Analisando a questão:

Não é fácil desatar o nó do significado de `ot sinal em Isaías 7. 11 e 14. Porém, o uso de `ot sina, junto aos cinco substantivos mencionados acima, pode ajudar a clarear a questão.

Primeiro, o uso secular de `ot sinal está ligado a preservação dos interesses da família (Nm 2.2) ou grupos em conflito (Sl 74.4). Os "sinais" são também estratégias de guerra. No uso secular o que é enfatizado é o seu caráter funcional. Por exemplo, a bandeira funciona como um instrumento sinalizador numa guerra.

Segundo, o significado teológico de `ot sinal é abundante e fértil no Antigo Testamento. O grande exegeta Herman Gunkel definiu o ´sinal` como uma ação, uma ocorrência, um evento pelo qual uma pessoa reconhece, lê, lembra ou percebe a autenticidade de alguma coisa. Entretanto, é possível avançar um pouco além nesta compreensão, analisando a função e o significado de `ot sinal.

O dado mais significativo que o Antigo Testamento acrescenta ao significado de "sinal" é que ele, freqüentemente, está ligado aos eventos históricos do êxodo. É bem verdade que o "sinal" está também relacionado à linguagem da criação ou da natureza, a saber:

os luzeiros no firmamento (Gn 1.14),
o arco-íris (Gn 9.12,13,17),
a produção no campo ( Is 37.30; 55.13),
bem como à circuncisão (Gn 17.11),
ao sangue do cordeiro pascal (Ex 12.13),
ao comer o pão asmos (Ex 13.9),
ao sábado (Ex 31.13,17).

Terceiro, já é tempo de voltar a Isaías 7.10-17 e verificar qual é o sentido de `ot sinal empregado por esse profeta. Uma pergunta faz-se necessária: qual foi a intenção de Isaías em recomendar Acaz a pedir um "sinal de Javé"? Para encontrar uma resposta é preciso, primeiramente, lembrar que não existe solução mágica em exegese bíblica. É preciso analisar o texto com seriedade. Assim:

a) O uso deste termo hebraico nos versos 11 e 14 possui um sentido especial.

"Sinal", aqui, não é concessão de sabedoria especial ou poderes mágicos, tal como descrita na história das pragas do Egito (Ex 7.3 e 7.8- 13.16);

- nem sinal de proteção, conforme Gn 4.15;
- nem sinal da aliança, conforme Gn 9.12-13;
- nem o ativador da memória, conforme Ex 13.9.

Contudo, a recomendação de Isaías busca motivar o rei Acaz a crer na ação de Javé. As palavras que encerram a perícope anterior (7.1-9b) substanciam este argumento:

"Se não credes (...) não permanecereis" (7.9b).

A intenção do profeta Isaías é persuadir Acaz não temer a ameaça de Rezin e Peca. (7.4), mas a crer em Javé (7.9b).

b) Ligado à questão do "sinal" está a negação de Acaz. Por que Acaz responde com certa violência ao profeta:

"Não pedirei e não testarei Javé" (7. 12).

Esta resposta esclarece a pressa de Isaías em interpelar o rei que se fechou à palavra de Deus. Aparentemente, a disposição de "não testar" ou "não tentar" a Javé pode parecer uma atitude elogiável de Acaz, por estar de acordo com a tradição religiosa (Ex 17.2,7; Dt 6.16). Entretanto, Acaz está esquivando-se de assumir a fé. No fundo, ele está se escondendo atrás de uma teologia montada sobre textos piedosos, por causa do medo dos adversários. Tomar o caminho da fé não é tentar Javé.

c) Diante da tentativa de dissimular a fé, Acaz recebe uma ameaça profética. O termo hebraico laken portanto (v. 14a) indica que o profeta anuncia uma palavra de ameaça. Na verdade, a ameaça (v. 14-17) é uma explicitação, através de palavras, do anúncio do "sinal".

"Eis!
A jovem mulher conceberá
e dará à luz um filho,
e chamará seu nome Imanuel (v. 14).

d) A exegese bíblica, ao longo dos séculos, tem incorrido em dois perigos:

· interpretar o sinal do Emanuel, isolando-o do contexto histórico, descrito em 6.1-9.6.
· discutir, prioritariamente, a virgindade da "jovem mulher (v. 14).

Estas duas preocupações têm engessado a discussão do real significado que encerra o anúncio de Emanuel. Por outro lado, esse sinal carrega dois aspectos que, aparentemente, se opõem. Mas é urgente analisar este sinal com responsabilidade:

· Primeiro, Emanuel, no hebraico ´imanu`el, significa conosco (está) Deus (a transliteração fê-lo "Emanuel"). Apesar dos versículos 13-17 conterem uma ameaça, eles conduzem um sentido salvífico e pastoral. Duas razões apontam para isto:

1. O próprio nome - conosco (está) Deus - revela a intenção de passar confiança e certeza da presença de Deus, mesmo em meio às incertezas políticas. O anúncio de salvação, que o nome Emanuel encerra, é dirigido para o povo de Judá, e não para os medrosos e descrentes, a saber, Acaz e sua corte.

2. O conteúdo e a intenção salvífica do Imanuel estão indicados, também, na sua alimentação - "leite coalhado" e "mel" (v. 15) - própria da era da salvação, tal como pensava e esperava o povo a caminho da Terra Prometida (Ex 3.8,17; Dt 32.13-14).

· Segundo, é preciso salientar que o Emanuel guarda e expressa o juízo de Deus sobre a corte de Jerusalém. Nesse oráculo de Isaías (7.10-17), o menino Emanuel vem para julgar a Casa de Davi e levá-la discernir entre o bem e o mal (v. 15b).

e) A criança desempenha um papel destacado no Livro de Emanuel (7.3,14,16; 8.3-4). Isso não constitui novidade para uma das tradições messiânicas de Judá que tinha no menino e pastor Davi, o herói maior (1 Sm 16.1-13). Para as pessoas que viviam em torno dessa tradição de Davi, a entronização de dois reis-meninos - Joás (2 Rs 12.1-4) e Josias (2 Rs 22.1-2) - não representou dificuldade.

f) Por fim, é preciso fazer uma referência ao termo hebraico ´almah jovem mulher (v. 14b). A tradução e interpretação da palavra ´almah tem trazido dois pontos de conflito:

O primeiro ponto de conflito tem sido substanciado pela versão grega da Septuaginta, que traduziu a palavra hebraica ´almah com o termo grego parténos virgem. Como a língua original do Antigo Testamento é o hebraico, é recomendável que a leitura preferencial seja ´almah jovem mulher - uma moça até o nascimento do primeiro filho.

O segundo ponto de conflito aponta uma tendência entre os intérpretes, que coloca no mesmo nível de significado a "jovem mulher" e o "Emanuel". Todavia, é preciso analisar as duas pessoas, salientando a figura de Emanuel como o eixo em torno do qual os capítulos 6 a 9 giram.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

1. O Livro de Emanuel quer mostrar que Deus chama o seu profeta num momento de angústia e crise do povo ("no ano da morte do rei Uzias" 6.1);


2. O Livro de Emanuel pretende mostrar que o medo antepõe a fé. Crer em Javé é condição única para avançar: "Se credes... permanecereis";


3. A proclamação do profeta Isaías anuncia o Emanuel, isto é, que Deus está com o povo apesar das crises. Este "sinal" é um julgamento para o descrente Acaz, mas é um anúncio de salvação para o povo que vivia em trevas.

BIBLIOGRAFIA

HARRIS, R. Laird et all. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.

SCHOKEL, L. A. & SICRE J. L. Profetas 1 - Isaías, Jeremias. São Paulo: Paulinas, 1988.

SCHWANTES, Milton. Isaías - textos selecionados. Vol. 1e 2. São Leopoldo: Setor de Publicações Faculdade de Teologia da IECLB, 1979.

SICRE, J. Luis. De Davi ao Messias - textos básicos da esperança messiânica. Petrópolis: Vozes, 2002.

VV.AA. In: Proclamar Libertação. Volumes: VI pg 198; XII pg 213; XIII pg 104, XXI pg 37.

Extraído do site da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista/Universidade Metodista de São Paulo. Reprodução autorizada.