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Em Espírito e em verdade |
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George Foster publicou pela Editora Betânia o livreto Em Espírito e em Verdade,3 e me enriqueceu, com algumas frases de efeito sobre este tema. Ele afirma que alguns adoram a Deus sem espírito e sem verdade, o que geralmente acontece com a maioria das religiões existentes no mundo, em que sincretismo e fé se misturam tanto. Depois ele escreve que outros adoram a Deus mais em espírito do que em verdade, falando de pessoas que adoram a Deus baseados mais em emoções do que em informações. “O perigo disso, obviamente, reside no fato de que tenderemos a formar opiniões com base em sensações, e nem sempre com base na realidade”, afirma Foster. Ainda outros adoram a Deus muito mais em verdade do que em espírito. É um tipo de adoração que prefere só os hinos tradicionais, em que não se erguem mãos diante de Deus, sem prostração espontânea, e onde a programação é ajustada sem deixar qualquer liberdade às pessoas. O retrato perfeito de uma igreja “tradicional”, dá a entender o autor. Mas, diz Foster, Deus quer que o adoremos em espírito e em verdade, em que nosso espírito, corpo e alma – emoções, vontade e intelecto envolvem-se em adoração! Jesus respondeu à mulher samaritana, informando que “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”. O que é adoração em Espírito e em verdade? Não é uma adoração em forma de... Os judeus estavam acostumados à forma, aos sacrifícios, aos elementos, e precisavam adaptar-se a uma forma de adoração invisível! Em verdade, quer dizer que não é uma adoração que precise de coisas exteriores, - apontando aqui para o ambiente, as cores, etc., e em espírito, porque Deus é Espírito, não tem corpo, nem precisa de lugar. Pode ser adorado em qualquer lugar! (At 7.48-50; 17.24-25). Para entender o que Jesus quis dizer temos de estudar por analogia. Jesus está falando de espírito e vida, de alma e corpo, de mística e razão, de fé e pragmatismo! Por exemplo, em Mateus 22.29 Jesus diz: “Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!”. A Escritura apela ao intelecto. O poder apela à fé! Alguns conhecem apenas a Escritura, e por isso a adoração limita-se ao intelecto, outros só conhecem o poder, e perdem o equilíbrio quando adoram, porque perdem a Escritura! São duas coisas espirituais: Uma apela à razão, outra à emoção. Mística e fé em contraste com a razão! A fé é uma coisa mística! Por exemplo, orar e falar com Deus são coisas místicas, porque não se vê a Deus! Resumindo, Foster está afirmando que, quando se adora a Deus sem espírito e sem verdade, temos apenas religião. Quando se adora a Deus mais em espírito do que em verdade, temos mais emoção que informação. Quando se pensa em buscar o conteúdo teológico, em satisfazer a razão e não os sentimentos adoramos a Deus mais em verdade do que em espírito. Portanto, a vida cristã é mística e pragmática! Razão e fé são duas coisas que acompanham nossa adoração e nossa comunhão com Deus todos os dias. A Bíblia satisfaz a razão e a fé. A vida cristã é mística e racional. Em espírito e em verdade. Disto não se pode fugir! Os que acreditam que a vida cristã é apenas racional, não conseguem usufruir das bênçãos espirituais – até porque elas estão num nível mais alto que é o espiritual, e se tornam agnósticos! As grandes conquistas de nossa fé estão nas regiões celestiais em Cristo Jesus. Ele e os apóstolos apontaram para uma vida cristã que se firma nesses dois pontos: espírito e verdade. Tudo que faz parte da fé reside no campo da mística – falar com Deus, orar, crer em Deus, etc. não podem ser entendidos pela razão, portanto, fazem parte da fé. A razão não admite a fé; e este é um legado da árvore do conhecimento do bem e do mal cujo fruto nossos pais comeram no Éden. É o humanismo e o positivismo que levam a pessoa a jamais depender de Deus para qualquer coisa. O humanismo – fruto da razão sem fé – não admite o transcendental, o espiritual, místico, a fé, etc. Exemplo disso são os saduceus, que eram ultra-ortodoxos, e agarravam-se demasiadamente à lei sem conseguir gozar dos benefícios da graça e da fé. Os saduceus alegavam ser descendentes de Zadoque, sumo sacerdote dos dias de Davi, e a própria palavra sadiq – retidão – mostra como eles viviam. Eles reconheciam somente a autoridade da Tora e não criam em qualquer outra palavra que não estivesse ali. “Os saduceus não podiam negar a existência de anjos os quais aparecem na Tora, mas eram frios quando tinham de estabelecer um ensino sobre anjos e demônios, cuja crença aumentou depois do exílio babilônico. Não conseguiam ver a ressurreição na Tora (enquanto outros a viam – Hb 11.19), rejeitavam, portanto, a crença de que a ressurreição fosse na forma de anjos ou de espíritos (At 23.8)”. 4 Os saduceus bem que representam hoje os que querem adorar apenas em verdade – desprezando a adoração no espírito! Por não crerem na possibilidade de ressurreição, Jesus citou a célebre frase: “Vocês estão enganados!, pois não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!” (Mc 12.24). Ao falar em “escrituras”, temos em mente a razão, o intelecto, pois a escritura apela ao intelecto; mas quando falamos de “poder de Deus”, temos em mente a mística, a fé, o que é transcendental. Se bem que as escrituras do Antigo Testamento abrem diante de nós experiências místicas dos servos de Deus! Imagine uma mula falando, um arvoredo balançando ao tropel da cavalaria celestial (1 Cr 14), ou tantos outros textos da Bíblia. Mística do início ao fim, a Bíblia satisfaz a razão do cristão. Por conseguinte, a vida cristã é mística e racional; equilibra-se na palavra e no poder de Deus. Mas quando se torna racional? Quando nos leva a viver como pessoas normais, trabalhando, estudando, obedecendo as autoridades constituídas – como qualquer cidadão. Nossa posição em Cristo, nas regiões celestiais permite-nos viver na mística, na fé, no poder de Deus, pois o poder de Deus transcende nosso conhecimento e nos coloca em contacto com um mundo espiritual cuja dimensão é ilimitada! Mas a escritura, ou palavra, leva-nos a viver na terra, como seres comuns! Essa dupla dimensão é ao mesmo tempo fantástica e incompreensível. O espírito a entende, e a razão tem de se submeter ao espírito. O mundo espiritual, no entanto, só pode ser entendido por pessoas espirituais. É disso que Paulo trata em 1 Coríntios 2. Uma reunião de adoração, ou um culto da igreja, o que nelas acontecem reside no mundo espiritual, residem na esfera do Espírito, mas acompanhadas pela razão! Daí que espíritos enganadores podem se infiltrar trazendo engano sem que sejam notados. De que maneira os espíritos enganadores operam num culto, se este é realizado na esfera espiritual? Como isso acontece? Pela vida de pecado da liderança! Portanto, viver uma vida apenas de poder é perigosa se não estiver firmada na escritura. Pois a escritura exige da razão, caráter! A fé ou o campo da mística não pode divagar sobre si mesma, mas tem de estar firmada na palavra ou na escritura de Deus! Os saduceus criam na escritura, mas desprezavam o poder de Deus! Diferentemente de muitos que hoje vivem no espírito – no poder – e desprezam, sem querer a escritura! Como falei anteriormente, Jesus falou de uma adoração em espírito e em verdade – novamente palavra e poder; mística e escritura; fé e razão, dando a entender que essas duas verdades precisam andar paralelas na vida cristã. Tudo que está no campo da fé, é da mística; tudo que esteja no campo da mente, é da razão. Por isso Paulo fala que temos de ter a mente de Cristo! E ele fala da “mente de Cristo” no mesmo contexto em que fala do homem natural e do espiritual. “quem conheceu a mente do Senhor para que possa instruí-lo?” Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1 Co 2.16). Os que têm a mente de Cristo, conseguem discernir melhor o mundo espiritual! Falamos do poder de Deus que veio sobre a vida de Maria, gerando nela o Filho de Deus! (Lc 1.35). É algo incompreensível à razão humana, mas está na esfera de Deus! Falamos desse trânsito no mundo espiritual que nos concede poder sobre os demônios, o mesmo poder que Jesus possuía (Lc 4.36). Desse poder que saía de Jesus quando curava os enfermos! (Lc 6.19). Referimo-nos ao poder – dínamos – que os discípulos receberam de Deus em Lucas 10.19 e Atos 1.8. Se examinarmos todas as referências sobre “poder”, referindo-se ao poder de Deus, veremos que o pêndulo de Deus move-se sempre para a mística, porque a razão ou nossa carne, sempre quererá nos trazer de volta para seu campo de ação. Por isso Paulo trata exaustivamente sobre a luta entre carne e espírito! Isso parece contradizer o tema aqui proposto, e ao que parece, quando nos tornamos “espirituais” também temos a tendência de palmilhar apenas o campo do “espírito” ou da mística, abominando a razão. Nossa razão está firmada na mente de Cristo que sabe discernir todas as coisas! “No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus”, afirma Paulo, “mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros” (Rm 7.22-23). Quer dizer, no interior, na vida do espírito, ele tem imenso prazer em Deus, mas em sua mente trava-se uma batalha: duas forças lutam por manter domínio de sua mente! Paulo afirma que sua pregação e mensagem não “consistiram de palavras persuasivas de sabedoria, mas consistiram de demonstração do poder do Espírito, para que a fé que vocês têm não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus” (1 Co 2.4-5). Paulo traz equilíbrio à questão da razão levando-nos a confiar no poder de Deus! Por isso Paulo fala em “palavra da verdade e no poder de Deus” (2 Co 6.7). Os que vivem uma adoração apenas no espírito tendem a ser enganados. Quando jejuamos e nos consagramos, diz Arthur Wallis, o jejum afina nosso espírito, deixando-nos sensíveis ao mundo espiritual, capacitados para tocar anjos e demônios. Disso os místicos o sabiam muito bem, pois percebiam em suas experiências que nem todas as manifestações de poder e luz vinham do Altíssimo; muitas eram das profundezas do inferno, com aparência divina! Místicos como João da Cruz, Teresa de Jesus, Madame Guyon e Evelyn Underhil – esta última protestante – buscaram compreender quando uma manifestação era puramente divina, da alma, ou satânica com aparência de espiritualidade. Eles criaram termos como, união da alma com o Criador, algo que começa no entendimento, passa pela vontade; domina o nosso ser, e por fim, alcança o mais profundo de nossas almas. Também inventaram o termo ócio santo, para explicar o momento em que na adoração e na oração ficamos passivos, deixando Deus agir. Um místico disse: “Não pense o mortal, que a alma perde tempo; a obra dele é divinal” (B. Nicolas Factor). Também criaram a expressão recolhimento. Um deles afirmou: “Ficamos tomados de intensa admiração que alarga a alma enchendo-a de alegria e prazer, ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor, bondade e formosura. Outras vezes o silêncio espiritual deixa a alma atônita, absorta, e prostrada diante de tanta grandeza” 5 Embriaguez de amor. Este é um termo que os adoradores criaram para expressar o momento da adoração quando se sente o gosto da doçura de Deus. Nesse nível de adoração, dizem, “a alma ora se derrete, ou salta de alegria, comportando-se com loucuras de amor, em cânticos de louvor, convidando a todas as criaturas a que louvem tanta bondade”. 6 E foram mais além inventando a expressão embriaguez espiritual, momento em que “a pessoa sente uma fragrância, um cheiro suave que conforta a alma e o corpo. Outras vezes sente um gosto, um sabor na língua, dando-lhe refrigério. Às vezes começa a dançar. Juan de Jesus Maria, no livro Escola de Oração chama isso de embriaguez espiritual”. 7 Creio que Paulo era um grande místico – maior que todos os aqui citados – mas aprendeu a equilibrar-se sobre a palavra, a ponto de esconder por catorze anos a grande experiência de haver sido arrebatado ao céu! E quanto poder na experiência, pois ele nem mesmo sabia se chegou lá no corpo ou no espírito! E é Paulo quem nos conduz pelo caminho da mística quando trata dos dons espirituais. Depois de falar sobre as manifestações do Espírito em 1 Coríntios 12 – todas sobrenaturais – ele orienta quanto ao nosso procedimento no culto cristão. A célebre pergunta de Paulo: “Que fazer, pois, irmãos?” de 1 Coríntios 14.26 é a chave que precisamos neste assunto: “Portanto, que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja”. Dependendo da maneira como se analisa a Bíblia, ela pode parecer um livro extremamente místico para alguns, e puramente histórico para outros. No entanto, quando a fé e a razão ficam presentes em nossa adoração, a Escritura se torna um livro sobremodo excelente, pois enriquece a fé e satisfaz o intelecto. Assim, por estranho que pareça, nosso culto se equilibra sobre a fé e a palavra, a razão e o poder! Se alguém tem um salmo, obviamente que é algo inteligível, racional, que se pode entender sem mistérios, pois se trata de uma poesia, uma letra de cântico – algo assim. Depois ele fala em “doutrina”, traduzida na NVI por “palavra de instrução”, também algo que nos leva a pensar, a refletir, a meditar, deixando-nos longe do transcendental e do místico, colocando-nos no “chão”, com os pés em terra! No entanto, a seguir, Paulo fala em alguém contribuir para o culto ou reunião da igreja com uma revelação. Ora, uma revelação empurra-nos da terra para o céu, pois manifesta algo transcendental, divino, que a razão, por vezes não aceita ou ignora. Paulo explica o que é uma revelação no mesmo texto de 1 Coríntios 12.8-10 fala de três dons de revelação: palavra de conhecimento, palavra de sabedoria e discernimento de espíritos. Ora, como os demais dons deste texto, estes são dons transcendentais – não tão pragmáticos como os de Romanos 12 – pois “revelam” o que se passa no coração humano! Então, num mesmo momento em que alguém vem com algo pragmático e racional como um salmo ou doutrina, outra pessoa “desvenda” os segredos do coração humano com revelações do Espírito. Aqui novamente vemos escritura e poder; espírito e verdade! É uma revelação que normalmente – mas não necessariamente sempre – se manifesta por outros dons místicos – línguas e profecias! “Mas se entrar algum descrente ou não instruído quando todos estiverem profetizando, ele por todos será convencido de que é pecador e por todos será julgado, e os segredos do seu coração serão expostos. Assim, ele se prostrará, rosto em terra, e adorará a Deus, exclamando: “Deus realmente está entre vocês!” (1 Co 14.24-25). Por isso o versículo 26 começa com: “Portanto, que diremos, irmãos?” Imagine alguém numa reunião da igreja, ou num encontro particular, e o Espírito Santo revelando o que ela pensou, imaginou, planejou ou lhe dando orientação sobre algo que esteja buscando! Esta é a parte mística de todos nós, em que o misterioso mundo espiritual se abre diante do homem! Mas Paulo vai mais além. Fala sobre línguas e interpretação. Se por um lado, língua é algo misterioso e transcendental, por outro o Espírito Santo não deixa nosso intelecto sem resposta: vem a interpretação. O místico e o pragmático; a escritura e o poder; a razão e a fé em nosso culto a Deus! Nem muito na razão, nem exacerbadamente na mística ou fé!
3 FOSTER, George R. Em Espírito e em Verdade, Editora Betânia, B.H. pp 7-10 4 BELL JR, Albert A. Explorando o Mundo do Novo Testamento,Editora Atos Ltda. B.H., p. 45 5 ARINTERO, I.J. Biblioteca de Autores Cristianos, tomo 91 p. 570 6 Ibidem p. 571 7 Ibidem p. 571
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