Josué Adam Lazier
Lucas 24.13-35
A educação em nossos
documentos
Vamos refletir, à luz do Plano
para a Vida e Missão, como a Igreja compreende e exerce a educação
desenvolvida pela Escola Dominical. A Escola Dominical tem sido a
principal agência de educação do povo metodista em seus 265 anos
de vida e missão. É uma herança que recebemos da Tradição Bíblica,
presente em todas as tradições no Antigo e Novo testamentos. Através
dela, a revelação de Deus foi transmitida, no início oralmente,
por diversas gerações e, finalmente, fixada por escrito. Foi um
processo lento, mas eficiente, no qual diversas tradições foram
perpetuadas por meio dos contadores de histórias – pais, anciãos,
profetas, sacerdotes, mestres, sábios, poetas e cantores. Mediante
a educação, o povo de Deus foi orientado a conservar estas tradições
e preparado para cumprir sua missão. A educação foi fundamental
para o crescimento e maturidade do povo de Deus. A Bíblia é o
resultado desta perseverança e deste processo de ensino e
aprendizagem.
Ao falarmos de educação, é necessário distinguir entre ensino e
educação. Ensino é “a transmissão de conhecimentos, informações
ou esclarecimentos úteis ou indispensáveis à educação”.[i]
Educação o “processo de desenvolvimento da capacidade física,
intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à
sua melhor integração individual e social”.[ii]
Em seus documentos, a Igreja Metodista opta pelo sentido mais amplo,
ou seja, educação:
·
“A Educação tem sido um dos instrumentos sempre presentes na ação
da Igreja Metodista no Brasil. Como instrumento de transformação
social, ela é parte essencial do envolvimento da Igreja no processo
da implantação do Reino de Deus” – Diretrizes para a Educação
na Igreja Metodista.
· “A Igreja
Metodista reconhece que é sua tarefa docente capacitar os membros
de suas congregações para o exercício de uma cidadania plena”
– Credo Social.
· “A Educação,
como parte da Missão, é o processo que visa oferecer à pessoa e
à comunidade uma compreensão da vida e da sociedade, comprometida
com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade segundo
o modelo de Jesus Cristo e questionando os sistemas de dominação e
morte, à luz do Reino de Deus” – Plano para a Vida e Missão.
· “A Educação
Cristã é um processo dinâmico para a transformação, libertação
e capacitação da pessoa e da comunidade. Ela se dá na caminhada
da fé e se desenvolve no confronto da realidade histórica com o
Reino de Deus, num comprometimento com a missão de Deus no mundo,
sob a ação do Espírito Santo, que revela Jesus Cristo segundo as
Escrituras” – Plano para a Vida e Missão.
É importante destacar que a
educação na Igreja Metodista ocorre na família, na Escola
Dominical, nos púlpitos, nos estudos bíblicos, nos cultos, nas
devocionais, nas reuniões, nas festas, nas celebrações, nas
instituições de ensino e na sociedade em geral. A Igreja destaca a
Escola Dominical (ED) como principal agência de educação, ou
seja, principal agência para a compreensão, transformação,
libertação e capacitação de seus membros. Estes são os
conceitos-chave nas definições de educação nos documentos da
Igreja Metodista. Veremos isto a partir do estudo de um episódio de
Jesus com seus discípulos.
A caminhada para Emaús – Lc
24.13-35
O texto “A caminhada para Emaús” narra um episódio em que
Jesus desenvolve sua ação pedagógica com seus discípulos. Há vários
outros episódios que demonstram a ação educativa de Jesus. Neste
encontramos dois discípulos que precisavam de compreensão,
transformação, libertação e capacitação. Lucas revela os
meandros do encontro do Jesus ressurreto com os discípulos que
caminham para casa.
Compreensão – 24.13-24
Após a morte de Jesus os discípulos se espalharam. Alguns voltaram
para seus afazeres, outros tomaram o caminho de casa. Dois deles
estavam no caminho para uma aldeia chamada Emaús. Estavam
desanimados e entristecidos pois suas expectativas quanto ao Messias
não se cumpriram. Jesus foi crucificado e morto, e agora retornam
para casa desolados, sem entender os acontecimentos. Enquanto
discorriam, eis que surge um paroikos (v. 18), um estrangeiro,
peregrino ou viajante. Com este peregrino estabelecem um diálogo
sobre os acontecimentos. O peregrino parece estar desinformado e um
dos discípulos narra os fatos. Os discípulos conhecem os fatos mas
não os compreendem. Embora houvesse a promessa, lembrada pelos discípulos,
de ressurreição ao terceiro dia e o túmulo ter sido encontrado
vazio, permanecia a dúvida, pois “não o viram” (v. 24).
É importante frisar que os discípulos não compreendiam. Deus
entra na história deles, está ao lado deles, mas não conseguem
ver. Aqui entra o processo educativo. Na Escola Dominical a Igreja
educa para a compreensão da revelação de Deus, do Reino de Deus,
do Evangelho de Jesus Cristo, do compromisso e comprometimento com a
vida criada por Deus. É tarefa da educação oferecer esta
compreensão.
Transformação – 14.25-27
O peregrino desconhecido narra
aos discípulos tudo o que as escrituras dizem a respeito do
Messias. “O próprio Jesus mostra que o caminho para entender a
sua pessoa e atividade é a leitura da Bíblia. Nela está anunciado
tudo o que o Messias enviado por Deus deveria realizar”.[iii]
Com a compreensão inicia a transformação na vida, nas ações,
nas atitudes, no comportamento, na vivência do discipulado, no
cumprimento da missão da Igreja. Zélia Constantino afirma: “Para
a Igreja Metodista, a educação só será autêntica quando estiver
vinculada com a vida. Deverá ser instrumento que ajude as pessoas a
refletir suas vidas e seja balizador para as tomadas de decisões.
Deverá dar continuidade ao processo de amadurecimento até o
encontro da plena humanidade aspirada pelo ser humano. Deverá,
ainda, dar instrumental de análise e crítica para, na medida do
possível, as pessoas serem agentes de transformação com voz e
vez, libertadas, capacitadas e seguras neste mundo”.[iv]
Libertação – 14.28-31
A leitura da Bíblia e o conhecimento de Deus sem uma vivência
concreta valem muito pouco. É necessário que haja vida como fruto
deste conhecimento e desta transformação. Este fruto é a libertação
para a vida plena e abundante, é a liberdade para a vivência de
relacionamentos pautados na solidariedade e na fraternidade, é a
liberdade para a prática da justiça e a vivência da cidadania.
Jesus fez menção de continuar a caminhada, mas os discípulos o
convidaram para permanecer. Ele aceitou o convite e, ao partilhar o
pão, os discípulos reconheceram que ele era Jesus ressuscitado. O
texto diz que os olhos dos discípulos foram abertos (v.31).
A educação na perspectiva metodista tem “como objetivo implantar
um novo mundo definido sob a égide do Reino de Deus. Sua proposta
é a busca de modelos que superem o modelo educacional vigente; ter
maior identificação com a cultura brasileira; motivar educadores e
educandos a se tornarem agentes de libertação, através de uma prática
educativa de acordo com o Evangelho; criar uma consciência e buscar
a prática da justiça e da solidariedade”.[v]
Capacitação – 24.32-35
Os discípulos retornam para Jerusalém, onde encontram os demais
reunidos, pois o “Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”
(v.34). A Igreja se reúne e promove o ensino sistemático das
palavras de Jesus. A ED é uma escola cujo diploma é dado pelo
Senhor da Igreja. Ensinar para a vida não tem dia de formatura, é
para sempre. Os discípulos de Jesus são alunos todos os dias.
Mesmo quando vierem a ser reconhecidos como mestres, continuarão
aprendizes do Reino de Deus. A capacitação na ED tem esta missão.
A ESCOLA DOMINICAL
Como já foi dito, a Escola
Dominical tem sido a principal agência de educação dos
metodistas. Ela contribui para a compreensão, transformação,
libertação e capacitação das diversas gerações de metodistas.
Para que ela continue sendo este instrumento de educação, a Igreja
segue às seguintes orientações:
1.
A ED é um departamento na estrutura da igreja local, regional e
geral, com organização e espaço delimitado na programação e orçamento.
Ela não se constitui em opção, mas como parte fundamental na
estrutura da Igreja Metodista.
2. Como departamento, a ED deve ter
horário e espaço respeitados por outras programações e
atividades da Igreja. Observa-se, em determinadas ocasiões, que seu
horário e espaço são “invadidos” por atividades com menor
importância.
3. A ED, ao contrário do que muitos
pensam, não tem dia para a formatura dos seus alunos, por se tratar
de uma escola para toda a vida. Todos os membros da Igreja são seus
alunos por estarem em processo de crescimento e maturidade que se
estende por toda a vida.
4. Como é uma escola para a vida, a
Igreja prepara o currículo e o material didático necessários para
o processo de educação e aprendizagem. O uso do material didático
produzido pela Igreja Metodista não é alternativo, mas obrigatório.
As igrejas locais devem adotar as revistas produzidas pela Igreja,
pois elas apresentam o currículo, as doutrinas e as ênfases que dão
o suporte para que ocorram a compreensão, transformação, libertação
e capacitação da nossa membresia. Ao usarmos nosso material,
estamos educando nossos filhos e filhas com os nossos instrumentos e
valores, e não com os dos outros. É como um pai e uma mãe que
educam seus filhos seguindo seus princípios e valores, e não os de
seus vizinhos.
5. Há que se destacar a presença dos
professores. Eles são os responsáveis pelo sucesso da ED. A Igreja
orienta o investimento na formação e capacitação dos
“mestres” que se dedicam voluntariamente para a tarefa sagrada:
educar para a vida e missão. Professor e professora bem preparados
oferecem excelente aula e influenciam seus alunos e alunas para a
vivência do discipulado e testemunho do Evangelho.
6. Entre os envolvidos na ED, os que
devem receber atenção prioritária são as crianças, modelo de
cidadãos do Reino de Deus. A Pastoral da Criança afirma que as
crianças são prioridades na Igreja Metodista, como o são no Reino
de Deus.
---
[i] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O Dicionário da Língua
Portuguesa. Rio de Janeiro, 3a edição, 1999, p. 766.
[ii] Idem, p. 718.
[iii] STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Lucas. São Paulo, Edições
Paulinas, 1982, p. 213.
[iv] CONSTANTINO, Zélia S. A educação cristã na Igreja
Metodista: Como dinamizá-la. Rio de Janeiro, Bennet, 1987, p. 9.
[v] Idem.