Carta a um Católico Romano


Extraída das «Obras» de John Wesley

Dublin, 18 de Julho de 1749

 

 1. Calculo que tenha ouvido umas boas centenas de histórias, a nosso respeito, - dos vulgarmente conhecidos por Protestantes -, e se der crédito, ainda que seja a um por cento delas, deverá pensar muito mal de nós. Mas isso é inteiramente contrário ao preceito de Cristo: «Não julgueis, para que não sejais julgados», e pode trazer sérias conseqüências, especialmente a de nos levar a pensar, igualmente, mal de vós. Disto resulta estarmos, de ambos os lados, com menos vontade de nos ajudarmos, uns aos outros, e mais prontos a ferir-nos mutuamente. Em conseqüência disto, o amor fraternal fica completamente destruído; e, em ambos os lados, ao considerar o lado oposto como monstros, surgem zangas, ódios e malquerenças, após cada discussão pouco afetuosa, seguida, freqüentemente, por barbaridades desumanas, como poucas vezes se notam entre pagãos.

2. Mas não poderá ser feito algo, mesmo concedendo, a cada um, o direito de reter as suas próprias opiniões, para suavizar os nossos corações, uns para com os outros, para pormos uma barreira a esta corrente de indelicadezas, e readquirirmos, pelo menos, um porco de consideração entre vizinhos e patrícios? Não será este o desejo do meu amigo? Não está plenamente convencido de que malquerença, ódio, vingança, amargura, quer em nós, quer em vós, nos nossos corações, ou nos vossos, são uma abominação para o Senhor? Sejam as nossas opiniões boas, ou más, estes azedumes são inegavelmente maus. São a estrada larga que conduz à destruição, ao ínfimo Inferno.

3. Não creio que todo o azedume esteja do vosso lado. Sei que o há demasiado, também, do nosso - tanto, que receio que muitos Protestantes (chamemos-lhes assim) se zangarão também comigo, por lhe estar a escrever desta maneira, e dirão: “Está a tratá-lo com muita deferência; não merece um tal tratamento, da nossa parte”.

4. Por mim, acho que merece. Creio que merece a mais delicada atenção que eu possa mostrar, ainda que não seja, senão, porque o mesmo deus nos ergueu, a ambos, do pó da terra, e nos tornou capazes de O amarmos e apreciarmos, por toda a eternidade; mesmo que não fosse, senão, porque o Filho de Deus nos comprou, a si, a mim, com o Seu precioso sangue. Quanto mais sendo uma pessoa temente a Deus (como, sem dúvida, muitos de vós sois) e esforçando-se por ter uma consciência livre de ofensa, para com Deus e para com o semelhante!

5. Tentarei, portanto, tão branda e inofensivamente quanto poder, remexer, de algum modo, o terreno da vossa antipatia, expondo, com simplicidade, qual é a nossa crença, e o que praticamos, de modo a que possais ver que não somos os tais monstros que, porventura, imaginais que somos.


Um Protestante, que o seja de fato, pode expressar a sua crença, por estas ou outras palavras semelhantes:

6. Como estou convicto de que há um Ser infinito e independente, e que é impossível que haja mais do que um, assim eu creio que, este único Deus, é o Criador de todas as coisas, especialmente de anjos e homens; que Ele é, de uma maneira extraordinária, o Pai daqueles que Ele regenera pelo Seu Espírito, a quem Ele adota, em Seu Filho, como co-herdeiros com Ele, e coroa com uma herança eterna; e, num sentido ainda mais elevado, o Pai do Seu único Filho, gerado desde a eternidade.

Creio que, este Pai de todos, tem, não só o poder de fazer tudo o quanto Lhe aprouver, e de possuir e dispor de tudo aquilo que por Ele foi feito, e que Ele, na Sua infinita bondade, criou os Céus e a Terra, e tudo o que neles existe.

7. Creio que Jesus de Nazaré foi o Salvador do mundo, o Messias há muito profetizado; que, ungido com o Espírito Santo, foi um Profeta, revelando-nos toda a vontade de Deus; que foi um Sacerdote, que se ofereceu, a Si mesmo, em sacrifício pelo pecado, e que ainda intercede pelos transgressores; que Ele é um Rei, que tem todo o poder no Céu e na Terra, e reinará até ter subjugado a Si todas as coisas.

Creio que Ele é o próprio, o verdadeiro Filho de Deus, Deus de Deus, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, e que Ele é o Senhor de tudo, com poder absoluto, supremo e universal, sobre todas as coisas; mas que Ele é, mais especialmente, o Senhor daqueles que n’Ele crêem, tanto por conquista, como por resgate, e obrigação voluntária.

Creio que Ele foi feito homem, ligando a natureza humana à divina, numa Única Pessoa; tendo sido concebido pela extraordinária atuação do Espírito Santo, e nascido da abençoada Virgem Maria, que, tanto antes, como depois de O ter concebido, continuou virgem pura e imaculada.

Creio que Ele sofreu dores inexplicáveis, tanto do corpo como do espírito, e , por fim, a morte, até a morte da cruz, quando Pôncio Pilatos foi governador da Judéia, sob o Imperador Romano; que o Seu corpo foi sepultado, e que a Sua alma foi elevada até ao lugar dos espíritos separados; que, ao terceiro dia, ressuscitou dos mortos; que subiu ao Céu, onde está no meio do trono de Deus, no mais elevado poder e glória, como Mediador, até à consumação do mundo, como Deus, por toda a eternidade; que, no fim, Ele descerá do Céu, para julgar a cada um, segundo as suas obras, tanto aqueles que então estiverem vivos, como os que tiverem morrido antes daquele dia.

8. Creio que o infinito e eterno Espírito de Deus, igual com o Pai e o Filho, é não só perfeitamente santo, em Si mesmo, mas a causa imediata de toda a santidade em nós; iluminando o nosso entendimento, corrigindo nossas vontades e afetos, renovando as nossas naturezas, unindo as nossas pessoas a Cristo, assegurando-nos da adoção de filhos, guiando-nos nas nossas ações, purificando e santificando as nossas almas e corpos, para um completo e eterno gozo de Deus.

9. Creio que Cristo, pelos Seus Apóstolos, reuniu para Si uma Igreja, à qual Ele tem continuamente acrescentado todos aqueles que serão salvos; que esta Igreja católica (isto é, universal), extensiva a todas as nações e épocas, é santa, em todos os seus membros, que têm comunhão com Deus o Pai, Filho e Espírito Santo; que eles têm comunhão com os santos anjos, os quais, constantemente, auxiliam os herdeiros da Salvação; e com todos os membros vivos de Cristo, na terra, bem como todos os que partiram na sua Fé e temor.

10. Creio que Deus perdoa todos os pecados dos que verdadeiramente se arrependem e crêem no Seu Santo Evangelho; e que, no último dia, todos ressuscitarão, cada um com o seu próprio corpo.

Creio que, assim, como o ímpio será para sempre atormentado no Inferno, depois da ressurreição, assim, o justo gozará felicidade inimaginável, na presença de Deus, por toda a eternidade.


11. Então, acha que há alguma coisa errada nisto? Haverá algum ponto que vós não possais acreditar, tão bem como nós?

Mas vós pensais que nós deveríamos crer ainda em mais. Não entremos, por agora, nessa controvérsia. Permita-me, apenas, que lhe faça uma pergunta: “Se alguém sinceramente acredita, apenas, e vive de harmonia, com isto, será possível qualquer pessoa persuadi-lo a pensar que esse tal ficará perdido eternamente?”

12. «Mas vive de harmonia com a sua crença?» se não vive, concedemos que toda a sua fé não o salvará. E isto leva-me a mostrar-lhe, em breves e singelas palavras, qual deve ser a regra de vida de um verdadeiro Protestante.

Note que eu refiro-me a um verdadeiro Protestante, porque eu ponho de parte todos os perjuros, os ébrios, os que não guardam o dia de descanso; todos os devassos, mentirosos, enganadores, opressores; numa palavra, todos aqueles que vivem em pecado. Os tais, não são Protestantes; não são, absolutamente, nada cristãos. Dê-se-lhes o verdadeiro nome; são puros ateus. São a praga da nação, o veneno da sociedade, a vergonha da humanidade, a escumalha da terra.

13. Um verdadeiro Protestante crê em Deus, tem plena confiança na Sua misericórdia, teme-O com um amor filial, e ama-O com toda a sua alma.

Adora a Deus em espírito e verdade, em tudo que Lhe dá graças; implora-O com o seu coração, bem como com os lábios, em todos os tempos e lugares; honra o Seu santo nome e a sua Palavra, e serve-O, verdadeiramente, todos os dias as sua vida.

Diga-me, não acha que pode estar de acordo com isto? Haverá algum ponto que possa condenar? Não é certo que pratica e aprova tudo isto? Poderá jamais esperar paz verdadeira neste mundo, ou glória no vindouro, se não crer em Deus, por meio de Cristo? Se, de igual modo, não temer e amar a Deus?

Meu querido amigo, peço-lhe que considere, eu não estou a persuadi-lo a abandonar ou a mudar a sua religião, mas, apenas, a seguir aquele temor e amor de Deus, sem os quais toda a religião é vã. Não lhe digo uma palavra sobre as suas opiniões, ou maneira externa de adoração. Mas digo-lhe que toda a adoração é uma abominação para Deus, a não ser que Ele seja adorado em espírito e em verdade, com o coração, bem como com os lábios, com o espírito e com todo o entendimento. Seja qual for a foram de adoração, que em tudo se Lhe rendam graças; de contrário, será tudo em vão. Use as observâncias externas que melhor entender, mas ponha n’Ele a sua confiança completa, e honre o Seu santo nome, e a Sua Palavra, e sirva-O, fielmente, todos os dias da sua vida.

14. Ainda mais: um verdadeiro Protestante ama o seu próximo - isto é, toda a gente, amigo ou inimigo, bom ou mau - como a si mesmo, como ele ama a sua própria alma, assim como Cristo deu a Sua vida por nós, assim ele está pronto a dar a sua vida pelos seus irmãos. Ele revela este amor, fazendo aos outros, em tudo, como desejaria que lhe fizessem a ele. Ama, honra e obedece a seu pai e mãe, e ajuda-os, com o melhor do seu esforço. Honra e obedece ao Chefe da nação, e a todos em autoridade. De boa vontade se submete a todos os seus superiores, professores, pastores espirituais e mestres.

Porta-se com humildade e reverência, perante os seus superiores. Não fere ninguém por palavra, ou ato. É verdadeiro e justo, em todas as suas transações. Não abriga maldade, ou ódio, no seu coração. Abstém-se de falar mal, mentir e difamar; nem, tão pouco, a fraude passa pela sua boca. Sabendo que o seu corpo é o templo do Espírito Santo, conserva-o na sobriedade, temperança e castidade. Não cobiça os bens dos outros, mas contenta-se com o que tem, trabalha par obter o seu sustento, e fazer toda a vontade de Deus, na posição de vida na qual Deus o colocou.


15. Vê alguma coisa digna de reprovação em tudo isto? Não está, nestes pontos, na mesma posição? Se não está (diga a verdade), não se julga condenado, tanto por Deus, como pela sua própria consciência? Poderá deixar de cumprir qualquer dos pontos mencionados, sem deixar de ser Cristão?

Vamos, meu irmão! raciocinemos, agora, juntos. Acha bem, se apenas ama o seu amigo, e odeia o seu inimigo? Não é isso que fazem os ateus e publicanos? É chamado a amar os seus inimigos, a abençoar os que o amaldiçoam, a orar pelos que o desprezam e perseguem. Não estará desobedecendo a esta divina vocação? Será o seu amor terno para com todos - não apenas os bons, mas, também, os maus e os ingratos - digno de ser aprovado como filho do Pai celestial? De contrário, seja o que for que creia, ou que pratique, o seu pai é o diabo.

Está pronto a dar a sua vida pelos seus irmãos? E fazer, aos outros, o que gostaria que os outros lhe fizessem? Se não, não engane a sua própria alma, pois pode considerar-se ainda um ateu. Ama, honra e obedece a seus pais, e ajuda-os com o melhor do seu esforço? Honra e obedece aos que estão em autoridade, aos seus superiores, pastores espirituais e mestres? Porta-se com humildade e reverência, perante todos os seus superiores? Não magoa ninguém por palavras, ou atos? É verdadeiro e justo, em todos os seus negócios? Tem cuidado em pagar tudo o que deve? Não acalenta malícia, inveja, vingança, ódio, ou má vontade para com ninguém? Se acalenta, é claro que não é de Deus, porque todos estes são atributos do diabo.

Fala a verdade, do íntimo do seu coração, para com todos, com ternura e amor? Pode julgar--se um verdadeiro «Israelita, em quem não há dolo»? Conserva o seu corpo em sobriedade, temperança, e castidade, sabendo ser ele o templo de Deus, será por Deus destruído? Já aprendeu, em qualquer posição em que se encontre, a contentar-se com o que tem? Trabalha para ganhar o seu sustento, aborrecendo a ociosidade, como aborrece o fogo do Inferno? O diabo tenta os homens, mas um ocioso tenta o diabo.

O cérebro de um ocioso é a oficina do diabo, onde ele continuamente maquina maldade. Não é indolente nas suas atividades? O que quer que tenha a fazer, fá-lo com todo o seu vigor? E faz tudo como para o Senhor, como um sacrifício a Deus, aceitável em Jesus Cristo?

Esta, e só esta, é a velha religião. Este é o verdadeiro, o Cristianismo primitivo. Ah, quando se espalhará ele por toda a Terra? Quando será plenamente achado, tanto em nós como em vós? Sem esperar pelos outros, que cada um de nós, pela graça de Deus, se corrija.


16. Não estamos de acordo até aqui? Demos graças a Deus, por isso, e recebemo-lo como um novo sinal do Seu Amor. Mas se Deus ainda nos ama, devemos nós, também, amarmo-nos uns aos outros. Devemos, pondo de parte esta infindável altercação sobre opiniões, incentivar o amor, uns pelos outros, e praticar boas obras. Ponhamos de lado os pontos onde diferimos. Temos aqui bastantes em que estamos de acordo, suficientes para serem o alicerce de cada caráter cristão, e de cada ação cristã.

Irmãos, não vamos ficar pelo caminho! Espero encontrar-vos no Céu. E se eu ponho em prática a religião acima descrita, estou certo de que não tereis coragem de dizer que eu vou para o Inferno. Não poseis pensar uma tal coisa. Ninguém vos poderá persuadir a isso. Mesmo a vossa consciência vos diz o contrário. Portanto, se não podemos, por enquanto, pensar, sobre todas as coisas, da mesma maneira, podemos, pelo menos, amarmo-nos mutuamente. Nisto não podemos estar em erro. Há um ponto em que ninguém pode duvidar, nem um só momento, e que é este: «Deus é amor; e, quem está em amor, está em Deus, e Deus nele».

17. No nome, pois, e no poder de Deus, decidamos, primeiro, não nos ferirmos uns aos outros; não fazemos nada desagradável, ou pouco amistoso, uns aos outros, nada que não gostaríamos fosse feito a nós próprios. Pelo contrário, esforcemo-nos por, a cada oportunidade, mostrarmos amabilidade, amizade, e um comportamento cristão, uns para com os outros.

Decidamos, em segundo lugar, - assim Deus nos ajude -, não falarmos áspero nem desagradavelmente, uns dos outros. A maneira segura de evitarmos isto é dizermos o bem que podermos, de uns aos outros; nas nossas conversas, quer com ou a respeito dos outros, empregar somente linguagem amável, falar com toda a mansidão e ternura, com a expressão mais simpática, sem falsear a verdade e a sinceridade.

Decidamos, em terceiro lugar, não abrigarmos qualquer pensamento menos amável, ou de inimizade, a respeito uns dos outros. Apliquemos o machado à raiz da árvore, examinemos tudo o que nos surja nos nossos corações, e não toleremos qualquer inclinação contrária a um afeto de ternura. Deste modo, facilmente nos retrairemos de ações e palavras pouco amáveis, uma vez que a própria raiz do azedume seja cortada.

Decidamos, em quarto lugar, esforçarmo-nos por nos auxiliarmos, mutuamente, naquilo em que estamos de acordo que conduz ao Reino de Deus. Até onde for possível, regozijemo-nos, sempre que pudermos, em unir as nossas mãos, no serviço de Deus. Acima de tudo, que cada um tome cautela consigo mesmo (visto que cada um tem de dar contas de si a Deus), para não falhar na religião do amor, para que não seja condenado naquilo que por si próprio aprova. Oh, que o meu amigo, e eu (façam os outros o que fizerem), «prossigamos para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus»! para que, «justificados pela Fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo», por cujo intermédio recebemos a Redenção; para que «o amor de Deus possa ser derramado, em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado». «Tendo por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, nosso Senhor», prontos por Ele «a sofrer a perda de todas as coisas, considerando-as como esterco, para que possamos ganhar a Cristo». (Filipenses 3: 8). Creia-me,

 Seu dedicado no amor de Cristo,

John Wesley

(Trad. de Luís Henriques da Silva)