O testemunho da vitalidade do Evangelho
na Igreja de Tessalônica

 

Parte I  

 

 

A cidade de Tessalônica

A Igreja de Tessalônica estava inserida no contexto de uma grande metrópole da época. Tratava-se de uma colônia romana, colonizada em 146 a.C. e que tornou-se capital da província da Macedônia em 42 a.C. Era o lugar onde morava o governador nomeado pelo imperador. Como grande metrópole, Tessalônica experimentava os problemas sociais, políticos, econômicos e religiosos decorrentes do tipo de sociedade que estava implantada no mundo greco-romano. Nesta época era muito difundido o slogan romano paz e segurança. Na verdade, esta “paz e segurança” eram o resultado do domínio violento levado a efeito pelos romanos, que não mediam esforços para dominar e escravizar nações vizinhas. Este slogan também falava do imperador como um semideus, pois templos eram construídos e cultos organizados em sua homenagem. Aqueles que se negavam a participar de um culto ao imperador corriam o risco da perseguição, prisão e morte. O imperador era o “Senhor” e deveria ser cultuado e adorado.

 

Foi neste contexto que surgiu a igreja de Tessalônica, considerada por Paulo como a glória do apóstolo (I Ts 2.20). O livro de Atos conta a história da chegada dos missionários a esta cidade (17.1-9). Paulo escreve a primeira carta aos tessalonicenses em torno de várias tríades: 1.3, 2.3, 2.10, 2.12, 2.19 e 5.14.

 

I. A igreja de Tessalônica e seus primeiros momentos – 1.1-3.13

 

a) “Damos, sempre, graças a Deus, por todos vós” – 1.2-3

Nas ações de graças encontramos pistas para conhecer a condição da comunidade cristã.[i] Ao apresentar sua gratidão pela vida dos tessalonicenses o apóstolo destaca, numa tríade, as principais características da Igreja: fé, amor e esperança (1.3). Elas vêm acompanhadas de outra tríade: fé ativa, amor abnegado ou esforçado e esperança perseverante.

 

Fé ativa ou trabalhosa

Fé significa a aceitação da mensagem das Boas-Novas e conformação com as exigências que o Evangelho de Jesus Cristo faz. Os tessalonicenses aceitaram logo a pregação e ensino de Paulo, deixando os ídolos e seguindo a Deus. Esta foi uma marca tão distinta da Igreja de Tessalônica que em outros lugares repercutiu a experiência dos novos convertidos na capital da província da Macedônia (1.9).

 

Paulo diz que tal aceitação deu-se em meio a muitas lutas e tribulações (1.6), o que destaca a aceitabilidade do Evangelho pelos primeiros cristãos de Tessalônica. Ao aceitarem o Evangelho, abandoaram o passado e rejeitaram o culto ao imperador, pois aprenderam a adorar ao único Senhor e Deus. Isto deve ter custado muito para os tessalonicenses. Por isso Paulo acrescenta o adjetivo que significa “trabalho”. O termo grego é traduzido por trabalho ou operosidade da fé, indicando uma fé ativa e operante. Tão logo aceitaram o Evangelho, tiveram suas vidas transformadas pelo poder da Graça de Deus e começaram a servir ao Senhor.

 

Ao longo da carta, Paulo usa 24 vezes o termo grego Senhor. Por que Paulo usa tantas vezes numa pequena carta este título? O termo Senhor era usado para referir-se ao imperador. Os cristãos o usavam para referir-se a Jesus Cristo, Salvador e Senhor. Era como um código entre Paulo e os tessalonicenses, resultado da fé ativa: Senhor é Jesus Cristo e não o imperador romano. Esta era uma fé que salvava e que transformava a mente, o coração e as atitudes. Por certo ela habilitou os cristãos em Tessalônica para o labor missionário.

 

Amor abnegado ou esforçado

Este é um tema tipicamente Paulino. O adjetivo que antecede a palavra ágape significa “trabalho árduo”, “trabalho pesado”, “sofrimento fadigoso”, “fadiga/cansaço/pena”, etc. Os membros da comunidade eram perseguidos por causa do verdadeiro Senhor que professavam e adoravam, mas traduziam em amor a Deus e ao próximo a experiência que tinham com Deus e Jesus Cristo. Os tessalonicenses eram capazes de sacrifícios de amor.

 

Este amor-ágape curava, restaurava, libertava, reconciliava, transformava, gerava alegria e motivava a busca pela santificação. Esforço do amor tem o sentido de manifestar em atos concretos esta característica genuinamente cristã e aprendida pelos cristãos de toda a Macedônia, dos quais os tessalonicenses eram notórios.

 

Esperança firme ou perseverante

Os cristãos primitivos aguardavam a volta de Jesus em sua geração. Não está muito claro nas cartas de Paulo, mas provavelmente na pregação oral (o que não foi escrito) o tema da parusia esteve presente. Parusia quer dizer vinda do Senhor Jesus. De todas as igrejas paulinas, Tessalônica foi a que mais sofreu influência da Parusia. Ele é o tema principal das duas cartas endereçadas aos tessalonicenses. Paulo ensina que ninguém sabe o dia e a hora e, portanto, todos devem trabalhar e vigiar para quando o Senhor voltar. Os tessalonicenses foram ensinados a ter esta esperança e aguardar o dia do Senhor.

 

Neste intervalo de tempo entre conversão e parusia, os cristãos tessalonicenses aprenderam a crer na ação de Deus. Esta confiança dava forças para o enfrentamento das dificuldades, sofrimentos e lutas da vida, ministério e sinalização do Reino de Deus.

 

A palavra esperança vem antecedida de um adjetivo. Trata-se de uma palavra que significa firmeza e tem o sentido de “esperança perseverante” ou “esperança que persevera”.

 

b) “porque o Evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas em poder” – 1.4-5 e 2.11-13

A Igreja de Tessalônica nasce sob o testemunho do evangelho. O anúncio do kerigma (I Co 15.1-3) foi feito sob o poder do Espírito Santo e com muita convicção (1.5). Não eram palavras soltas, sem sentido, mas contundentes e com significado para os ouvintes. Como era o Espírito Santo que agia, os pregadores, Paulo, Silas e Timóteo davam testemunho acerca do Evangelho como instrumentos dedicados ao Senhor. O resultado: mais tessalonicenses acolhiam a mensagem como a genuína Palavra de Deus (2.13).

 

O apóstolo relata a estratégia usada para organizar a comunidade cristã em Tessalônica: “exortamos, consolamos e admoestamos” (I Ts 2.11-12). É necessário conhecer o sentido destas palavras, pois ele se perde na tradução para o português. Vejamos:

 

Parakaléo - traduzido por exortação, tem o sentido de chamar ao lado para consolar. Paulo fortaleceu as pessoas na fé, no amor e na esperança, para que viessem a ser testemunhas convictas da vitalidade do Evangelho.

 

Parameno - traduzido por consolação, tem o sentido de ficar ao lado de, encorajar. O apóstolo ficou com aqueles que estavam amedrontados para que tivessem fé e coragem em proclamar o Evangelho.

 

Martureo - traduzido por admoestação, mas tem o sentido de dar testemunho, declarar as coisas de Deus, relatar o que Deus fez.

 

Os dois versículos enfocados revelam o método usado por Paulo na evangelização de Tessalônica e na edificação da igreja. Com esta estratégia ele criou uma “identidade cristã” entre os novos convertidos. Fez isto através do ensino sistemático, fruto da dedicação e do amor que o movia em direção as pessoas: “como um pai a seus filhos...” (v.11), formando assim uma igreja para o testemunho da vitalidade do Evangelho.

 

Continua na próxima edição

 

 

Bispo Josué Adam Lazier